Roteirão Quase-gay da Estrada Real
23/02/2007
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No começo da década de 90 surgiram os primeiros Carnaval Off, que na época significava carnaval sem samba, com música eletrônica. Como o próprio conceito de carnaval mudou e qualquer tipo de música hoje tem espaço na festa que já foi de Momo, ser Off no Carnaval significa ficar fora do eixo Rio-Floripa-Salvador - pelo menos para quem é gay.
Foi nesta busca do Off Off que decidimos fazer trilha pela Estrada Real, aquela usada pelos portugueses para levar o ouro e diamante das Minas Gerais para o Rio de Janeiro e de lá para a terrinha. Ela tem três partes principais: o Caminho Velho, que vai de Ouro
A idéia era fazer uma viagem a dois sem destino fixado, deixando as cidades do trajeto irem se revelando. Imaginávamos que seria um programa casal, em terras pouco abertas para um turista gay.
Ledo engano: a região não apenas é friendly, como oferece muitas oportunidades para quem está disposto a todo tipo de aventura. E talvez por conta do leite de qualidade e do ar puro, é surpreendente a quantidade de homens, principalmente os mais jovens, com rostos bonitos e corpos bem feitos. A cachaça correndo solta nesses dias de folia sem dúvida ajudava a tornar o ambiente bastante simpatizante. Não fomos os primeiros a descobrir essa rota, já que encontramos vários turistas gays viajando sozinhos, em casal ou em grupo, em praticamente todas as cidades e vilarejos da região.
Resolvemos já na saída de São Paulo começar a viagem pegando a Fernão Dias até Três Corações e de lá para São Tomé das Letras. A cidade é bem exótica, com suas casas construídas
De lá fomos para Tiradentes, usando uma vicinal de terra até Cruzília e de lá pegando asfalto até Tiradentes. No meio do caminho, comemos em um restaurante simplicíssimo em um camping, mas com comida mineira magistral e passamos pela super charmosa Tiradentes, que fervia no carnaval. Ótimos restaurantes, lojas de design e artesanato de bom gosto tornam a cidade um destino natural para turistas gays - que circulavam em grandes grupos pela praça central e paqueravam bem abertamente. Na vizinha São João Del Rei, desprovida do encantamento colonial e mais parecida com uma cidade qualquer, avistamos blocos quase inteiros de foliões gays aqüendando.
O trecho mais bucólico de toda estrada é São Sebastião da Vitória – Cruzília, cerca de
Bêbadas, as bonecas nos atacaram usando a desculpa da folia e do álcool. Não foi o caso, mas para quem tem fantasia por casados que perdem o controle do sexo no carnaval, é um prato cheio. Não era á toa que havia na Capela do Saco um grupo de turistas evidentemente gays da cidade grande (vários bem traçáveis, inclusive) esperando a balsa na Capela do Saco para aqüendar em Caquende.
Carrancas é uma cidade bastante religiosa e conservadora, que sequer festeja carnaval. O complexo da Fumaça, uma série de cachoeiras enormes extremamente cenográficas, tem um camping lotado de famílias fazendo churrasco. Mas basta acionar o espírito aventureiro e escalar a encosta da maior delas, para chegar a uma série de poços desertos, onde apenas os solteiros se aventuram... ;-)
Chegamos já tarde da noite em Caxambu, cidade que havia conhecido na infância e que surpreendeu inicialmente pelos prédios de 20 andares e engarrafamentos em suas ruas cheias de faróis. Mais inesperado foi participar do carnaval de rua lotadíssimo, com direito até a montadas, travestis e sexo liberado nos banheiros químicos.
Como a cidade estava lotada, acabamos dormindo na suíte árabe em um motel na estrada para São Lourenço, com direito a teto
Na super familiar estância fomos ao Balneário do Parque das Águas fazer sauna e tomar uma ducha escocesa. Pois no meio dos vovozinhos havia lá dois locais que vieram puxar papo evidentemente esperando alguma coisa além.
Passa Quatro tem um centro mais engraçadinho e um restaurante, o Fernão, que se destaca por oferecer cardápio dando uma nova roupagem à tradicional comida mineira.
As cidades do trecho paulista do percurso são sem graça e não merecem sequer menção.
Terminamos a viagem pernoitando na linda fazenda de um casal (gay, logicamente) em Sapucaí-Mirim. E hoje já voltamos à vida na metrópole...
| Escrito por André Fischer às 18h23 | ![]() |
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O Hipocampo
16/02/2007
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Os anos vão passando e vai ficando cada vez mais difícil gerir a imensa quantidade de fatos acumulados por uma vida felizmente profícua em histórias. Alguns episódios são relembrados por amigos, mas me parecem biografias alheias que de alguma forma ouvi falar. Debruçando um pouco mais sobre essa questão da administração da memória, descobri que existe uma região do cérebro chamada Hipocampo, que teoricamente é onde memórias de curto prazo são armazenadas como memórias de longo prazo. Não me lembrava da existência dele das aulas de biologia- e olha que eu era bem CDF na escola.
Será que o hipocampo é passível de treinamento? As memórias que começam a desaparecer o fazem por falta de acesso ou por um movimento voluntário de deixar certas coisas para trás?
Questiono minha competência de fazer uma edição da minha vida sendo totalmente correto, pois alguns eventos ganharam ‘versões oficiais’ para uso externo e já não sou capaz de dizer o que realmente aconteceu. Na falta de testemunhas, fica assim mesmo então. A essas alturas uma autobiografia já teria que contar com o apoio de familiares e amigos de longa data.
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Por falar em anos passando, já viu a Trip com o tema ‘Corpo’ que está nas bancas? A revista abre com um editorial com fotos de homens com sungas pretas em diversos estágios da vida: 70, 60, 50, 40, 30 e 20 anos. Surpresa foi atestar que o mais gostoso de todos, no meu gosto pessoal obviamente, era de longe o 50ão – o surfista grisalho deixou no chinelo até o garotão de 20. Uma esperança e um estímulo para os momentos de preguiça de ir à academia.
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Estou de saída para uma aventura inédita: fazer uma trilha - de carro bem entendido - pelo Caminho Velho da Estrada Real. Vai servir como amostra para outras viagens que pretendo fazer pela América do Sul, desbravando o continente sobre quatro rodas.
Bom carnaval a todos.
| Escrito por André Fischer às 12h34 | ![]() |
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Sea, Sun, Sex, Samba
12/02/2007
O título-versão da música do
Gainsbourg é para sinalizar um fim-de-semana bem animado no Rio pré-Carnaval.
Fui para duas reuniões de trabalho e
consegui fazer render apenas uma já que outra tiveram a cara
de pau de remarcar o ponto de encontro para a banda Simpatia, Quase Amor.
Acredito na informalidade carioca, fiz a primeira reunião de bermuda e sandália
o que não impediu que fosse produtiva. Agora, marcar um encontro de trabalho
para uma banda, acho meio demais. Não sei se já apaulistei de vez, mas me senti
quase ofendido e dei o perdido no empresário folião.
Dia lindo de morrer, ainda deu para
pegar praia. Fui encontrar um casal amigo na Farme. Fazia muito tempo que nem
dava aquela passadinha nem para checar a freqüência do ponto. Não vi muita
diferença do que sempre foi, simpático e acolhedoramente gay, mas prefiro mesmo
o Coqueirão - e ainda ando me bandeando mais pros lados do Caeser
Park.
Como o sol agora está se pondo
atrás do Dois Irmãos, a saída da praia não chega às 20h, hora que justamente
estava passando a banda. Fui dar uma olhada, o começo estava bem família, muita
gente bonita que não se abalou nem com os dois tiros que rolaram na esquina da
Garcia (os cariocas pediram para não tocar nesse ponto, então vamos
abafar).
O chill in para o samba foi na casa
de amigos que assinam o pay per view do Big Brother e ficamos vidrados na
festinha. Seguramente eles tomaram alguma coisa adicional, álcool só não coloca
ninguém daquele tanto. Talvez o torpor das câmeras ligadas e 40% da audiência do
país ligada neles dê uma adrenalina, mas ainda acho que tem mais.
Uma lástima Fernando estar no
paredão, se sair essa edição do BBB perde a pouca graça que tem. Mas acho que o
povão vai preferir manter o triângulo amoroso dos loiros.
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Do Chill in para a quadra da Unidos da Tijuca.
Já tinham dito que essa era
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Toró impediu a piscinada programada. Nada de putaria, apenas a idéia de um Women Free environment para variar. Finde acabou no Kinoplex do Shopping Leblon (BTW adoro a idéia do Shopping no bairro, mas aquele toletão branco - mal acabado por fora e sem criatividade alguma por dentro - prejudicou a vista do Leblon pela Lagoa) assistir A Rainha.
Lembrei daqueles dias, acompanhei cada momento daquela semana, chorei pencas na época durante o enterro. Adoro mesmo Stephen Frears, super corajosa mistura de ficção e documentário. Queria muito saber se a rainha Elizabeth assistiu e o que achou...
OBS: O por do sol lá de cima não é Ipanema. Viajei com a câmera, estava sem bateria e não registrei nada. A foto é a visão da nossa choupana em uma praia quase deserta no Caribe mês passado.
| Escrito por André Fischer às 18h10 | ![]() |
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Mudança de Paradigma 2
07/02/2007
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Estou novamente tentando trocar o horário de malhar, do fim da noite noite para a manhã. Tarefa árdua mudar hábitos noturnos tão arraigados. Não consigo nunca dormir antes das 2h30, 3h, mesmo ficando em casa. Passar a acordar às 8h significa dormir pelo menos uma hora e meia mais cedo – e deixar de sair durante a semana com a freqüência que faço há anos (décadas seria melhor dizer, mas vamos abafar o caso). Difícil para alguém que vive só há tempo, com todo espaço para cultivar manias e hábitos, fazer essa modificação na maneira de montar a agenda.
Ao mesmo tempo toda mudança é mais fácil justamente por viver só, já que só depende de mim mesmo.
E é aí que mora o perigo.
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Sábado acordamos com as manchetes negras sobre o fim do mundo. Quando era pequeno falava-se que a corrida nuclear acabaria com a humanidade. Agora sabemos que o principal risco não é a bomba dos americanos ou russos, mas a maneira inconseqüente como nós mesmos vivemos, consumimos e ocupamos o planeta. É preciso mudar tudo, a começar o modo como enxergamos e nos relacionamos com o mundo.
O que dificulta ainda mais a mudança é que os resultados catastróficos mesmo não vão ser vistos por nós, mas pelas gerações seguintes – como não vou ter filhos devo ter o desprendimento ainda maior para pensar na raça humana como um todo e não apenas na minha família.
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O bacana da vida é que depois de ler o jornal apocalíptico de sábado fomos para um paraíso a menos de uma hora de São Paulo. E ainda por cima com um grupo de amigos queridos, em esquema de vivência comunitária – mas com infra de primeira classe - tomando banho em uma cachoeira de águias cristalinas, dançando sob o céu prateado de lua cheia até o amanhecer. Tem coisa mais gostosa?
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Dois outros amigos queridos não agüentam mais São Paulo. O casal é lindo, inteligente, bem sucedido, mas entrou numa bad trip com a cidade e só conseguem enxergar o que há de ruim. Por um lado, entendo. São Paulo é foda mesmo, feia, mal cuidada e requer um olhar muito carinhoso. Como imigrante no entanto, valorizo demais tudo aquilo que falta na minha cidade natal (sobretudo o dinamismo e a necessidade de conexão com todo de tipo de informação). É isso que torna as pessoas daqui, e por extensão a cidade, tão especiais. Ainda por cima sendo gay, pensando na quantidade de opções de lugares e gentes, não dá pra imaginar viver em outro lugar. Pelo menos por enquanto.
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A foto fora de foco lá de cima lado é de um PF delicioso que batemos em um restaurante trash no centro antigo de Bogotá. Também comemos nos melhores restaurantes da cidade, seguindo um circuito recomendado de chefs colombianos. Mas às vezes as melhores recordações são justamente as mais despretensiosas...
| Escrito por André Fischer às 19h11 | ![]() |
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