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Dia do Ventre Livre

28/09/2006





Em 28 de setembro de 1871, há exatos 135 anos, era implantada a Lei do Ventre Livre que decretava a liberdade para todos os filhos de escravos. Dessa forma o país dava o primeiro passo real em direção à abolição da escravatura.

Na realidade o Brasil sempre foi um país onde o ventre, assim como a genitália e o ânus, foi livre. Somos um dos raros países do mundo onde nunca houve uma legislação regulamentando a vida sexual dos cidadãos. A homossexualidade, sexo anal e grupal, destrinchados e proibidos com detalhes pelas leis de muitos países ditos civilizados, nunca foram sequer mencionados por nossas leis. Desde que consensual e entre quatro paredes, a atividade sexual entre dois seres humanos maiores de idade de qualquer sexo e orientação sexual sempre foi considerado no Brasil assunto de foro íntimo, não regulamentado por lei.

Apesar de sermos uma sociedade hipocritamente conservadora, essa liberdade, esse ventre livre, não deixa de ser um avanço. Acredito que a ausência de legislação sobre o sexo seja reflexo e uma das causas de nossa desencanação sobre o que se faz ou deixa de fazer na cama, que acontece pelo menos sob o ponto de vista legal.

O nosso problema está justamente no fato de não termos uma legislação para lutar contra e por isso acabamos não batalhando por leis que garantam direitos mais além de simplesmente transar.

Como uma forma de marcar a data e as lutas que não foram lutadas em seu nome, proponho que passemos a realizar anualmente uma comemoração oficial do Ventre Livre. Poderia ser uma efeméride especial para se fazer sexo anônimo ou grupal, ou ainda de casais se liberarem por um dia. Tudo muito sério, claro. Algo parecido com as cerimônias em homenagem à deusa Astarte (na foto ao lado), muito popular na Antiguidade, quando eram feitas oferendas corporais, a maioria envolvendo entregas sensuais a estranhos e/ou sacerdotes.

E dedicar toda essa energia sexual em nome de uma causa ;-)

*

Já leu Brokeback Mountain? Incrível como o filme é uma adaptação tão perfeita do conto da Annie Proulx...

 


Escrito por André Fischer às 18h43 Comentários Envie

Mudei meu voto


Estava decidido a votar nulo, como protesto contra tudo que anda acontecendo neste país. Cansado da mediocridade que impera nestas terras, não consigo enxergar uma alternativa entre a corja que se apoderou do poder público em todos os níveis da administração pública de todo país. Mas os fatos dos últimos dias não me deixam mais simplesmente dar uma banana para o processo em andamento.

Em 2002 fui com Daniel e Nina para Paulista ver o Lula eleito. Choramos abraçados, emocionados com a possibilidade de uma mudança real no país. Nunca fui petista, sempre votei mais para esquerda, naquele ano mesmo votei Lula-Alckmin porque achava que o ideal era uma mistura dos dois partidos no poder, nem tanto para um lado, nem tanto ao outro.

Ontem mesmo na ponte aérea, vim sentado ao lado de um religioso que parecia um padre ortodoxo grego. O vôo teve uma turbulência séria e por um instante achei que aquilo tudo parecia uma cena armada para o fim dos meus dias. Naquele momento, no meio de uma seqüência rápida de imagens, não sei porquê, realizei que votar nulo iria contra meus princípios.

Meu pai foi cassado em 68, cresci em uma casa onde sempre se respirou política. Militei um pouco na época da faculdade e mesmo tendo votado na chapa do Bussunda (o próprio), Esfaqueie sua Mãe, para o DCE, não consigo deixar de pensar seriamente no voto como instrumento.

Por isso resolvi votar no Cristovam Buarque. Continuo anulando para governador e deputado estadual. Estou avaliando ainda se vou ter estômago para votar federal. Soninha, tá foda marcar 13 na urna. Otimista apesar de tudo, espero que esse processo todo seja parte de uma depuração e que daqui a alguns anos a coisa toda esteja melhor.

Ontem estava em uma festa em uma mansão cujo proprietário diz que vai votar na Heloisa Helena em protesto. Sei. Que tal ela dar uma vomitada aqui na sua casa antes de dividi-la entre 15 famílias?, perguntei. Na boa, HH é uma coisa Enéas um pouco melhorada. Se o Cristovam tivesse alguma chance de ser eleito, provavelmente não votaria nele, assim como votei no Ciro em 98. Nunca gostei do PDT, acho que o Brizola foi um Chávez que ajudou a detonar o Rio - cidade que abandonei justamente ao final do desastroso governo dele.

Fato é que não dá para simplesmente anular, quando a opção que temos é ver o Lula ganhando em primeiro turno fingindo que não sabe de nada sobre a lama que acontece no governo dele. Um segundo turno pelo menos amplia discussão. O Cristovam siginifica um voto pela ética e dando uma mensagem de que a educação é a única saída para este país de ignorantes, governado por um ignorante. E a militância gay petista que me desculpe, mas acho muito pouco o que foi feito em termos de direitos gays até agora que justifique uma defesa nesses termos.

 


Escrito por André Fischer às 18h40 Comentários Envie

Eyes Need Sugar

13/09/2006

Restos de champagne e caipirinha
Acabou a lenha na lareira,
mas agora já tá quente
Electro francês no carro,
J'adoooooore
Eu corto o som

e eu recoloco o som
Segunda no Puri
Terça no Reserva
Quarta no Gloria
Sexta tem BotaFogo no Vegas
Sabor da Melancia dá fome de sexo
Promiscuous boy,
let's get to the point
Bem bom o bofe da Bianca
Qual é a do atleta?
Krumping na Maromba
Verde, água gelada
O gato em cima de mim,
minha mão encaixa no peito dele
Horas no Soulseek
Meditação pra Lakshmi
Algumas coisas são melhores na teoria,
como lingüiça de truta


Escrito por André Fischer às 10h11 Comentários Envie

Atualizações

06/09/2006

As datas dos últimos posts está meio estranha, eles foram postados originalmente entre final de julho e começo de setembro diretamente no Mix.

http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/subcanal/12_138.shtml


Escrito por André Fischer às 15h14 Comentários Envie

Tirando da frente: Clodovil, Plutão e Orkut



Acabei deixando de comentar três tópicos importantes que rolaram na semana passada.

Conversei com amigos que cobraram um posicionamento sobre esses três temas polêmicos: Clodovil, Plutão e Orkut.

*

Não imaginava que Clodovil tivesse alguma chance de se eleger deputado, mas soube por um amigo político que, segundo pesquisas, provavelmente ele será um dos mais votados no estado e, mesmo sendo candidato por um partido anão, corre o sério risco de ser eleito – e abalar Brasília como promete em sua campanha. Triste movimento glbt brasileiro, que vai ter como primeiro deputado federal assumido um homossexual que é contrário aos direitos gays.

Recebi telefonema de Clodovil, que leu o post deste blog na semana passada e ficou furioso. Reproduzo o diálogo, mesmo sendo muito particular, porque ele sabe que estava falando com um jornalista, ligou em meu celular de trabalho em horário comercial no escritório do Mix. Fiquei na dúvida se deveria fazê-lo, pois estaria dando ainda mais espaço a um candidato que coloco no mesmo saco de Maluf e Enéas: extravagâncias do mal produzidas pelo desinformado eleitorado paulista. Mas vamos lá...

Imagine o susto ao atender o celular com o seguinte petardo: “Fischer? Clodovil. Você está feliz”.

Disse que sou uma pessoa feliz e que respondeu querendo saber porque eu o odiava. Na hora nem me toquei que havia falado sobre a vaia que ele tomou em Juiz de Fora, mas o que pegou mesmo foi a descrição da fantasia que ele usou no show.

Ele descreveu a peça que estava usando, feita com não-sei-quantos swarovskis e afirmou ainda que era o maior estilista que o Brasil já teve. Disse ainda que estava se candidatando para defender “os direitos de vocês”. Aproveitei para dizer, com toda gentileza, que ele sempre foi contra a causa gay e que sempre me incomodou profundamente as posições dele, sobretudo querer a essas alturas do campeonato levantar essa bandeira.

Clodovil perguntou se a liberdade que eu queria ver defendida era a que ele tinha visto em Juiz de Fora, onde viu uma travesti chupando um segurança no camarim.
- Não estamos falando disso, tentei retrucar.

Percebi que o diálogo era na verdade um monólogo e resolvi ouvir. Apenas disse que respeitava o fato dele falar diretamente sem rodeios. Se for eleito, imagino que essa vai ser sua característica principal – o que quer que isso signifique.
Imagino que entre o público gay não haja ninguém que, em sã consciência, vote nele pelas tantas barbaridades que já falou sobre gays e lésbicas. Mas também não duvido que suas fãs de terceira idade o coloquem no Congresso Nacional disparando seus venenos contra o mundo.

*

Acho o Orkut uma ferramenta importantíssima para localizar pessoas e buscar informações sobre comunidades e assuntos específicos. Uso como uma ferramenta de trabalho e acho um equívoco empresas de comunicação que estão bloqueando o acesso a seus funcionários. E estou do lado da Google Inc na questão da quebra do sigilo de IPs. Nada justifica essa invasão que a justiça brasileira está querendo impor, sob a bandeira de soberania nacional.

Se hoje estão buscando os donos de comunidades de pedófilos, amanhã podem buscar homossexuais ou dissidentes políticos. Acho um precedente muito perigoso. Ainda bem que na Califórnia esse direito é entendido e respeitado acima de tudo, ainda que possa criar algumas deturpações como dar espaço a essas pessoas doentes. 

*

Plutão, o querido regente de escorpião, foi rebaixado a categoria de planeta anão e não está mais entre os Top 8 do nosso sistema solar. Isso pode abalar a imagem da ciência, que como disse em um post anterior, dá provas de que não é absoluta e cujas verdades absolutas podem mudar de acordo com as convicções de cada tempo. Mas astrologicamente essa decisão não muda em nada o papel de Plutão.

Já vi gente dizendo até  retorno de Saturno não valeria mais por conta dessa mudança. Vale lembrar que na astrologia Sol e Lua são planetas e não é o tamanho de Plutão que mostra sua influência sobre os humanos. É seu ciclo, que demonstra um processo de lenta e profunda transformação que todos experimentamos, que continua valendo. E sempre valerá. Viva Plutão!

  


Escrito por André Fischer às 15h13 Comentários Envie

Diário de Juiz de Fora 2

Sábado
Depois do café peguei um solzinho na piscina para carregar a bateria (e checar o fervo). O dia cheíssimo começou de verdade com ida à Passarela da Beleza – tradicionalmente o calçadão da Rua Halfeld abriga o desfile das bonitas e famosas que participam ou não do concurso Miss Brasil Gay. Só que esse ano a rua estava tão, tão lotada que não houve espaço para o desfile. Só uma confusão de gente e televisões. Das caricatas presentes, a minha favorita foi a Marge Simpson.

Antes que a Parada começasse, fui com os meninos do ParouTudo no OffMix, mercadinho de moda com estilistas locais que estava rolando no Hotel. Simpáticas as grifes, uma coisa meio copiada de outras marcas cariocas e paulistas, mas ainda assim válida a iniciativa.

A Parada estava marcada para meio-dia, mas como todos os eventos em Juiz de Fora, atrasou mais de duas horas. Mas, como todos os eventos de Juiz de Fora, a espera valeu.

Quatro carros da organização, mais um trenzinho da terceira idade, deram conta das milhares de pessoas que vieram à bela Avenida Rio Branco. Juiz de Fora tem uma combinação urbana interessante: parece uma metrópole, em fotos chega a dar a impressão de ser uma capital norte-americana.

A organização falava em 100 mil, a polícia em 65 mil. Eu arriscaria uns 80 mil. O dia estava lindo, a cidade se enfeitou para participar da festa. Muitas, muitas famílias, patricinhas, mauricinhos, manos. Todo mundo se produziu para fazer bonito.

A grande sensação era uma gravatinha, em estilo Rebelde, nas cores do arco-íris que todas as adolescentes estavam usando. Bem mais da metade do público não era gay. Uma gente bonita, a de Juiz de Fora. Uma composição étnica parecida com a do Rio, mas achei no geral o povo mais ajeitado, menos pobreza aparente. Houve alguns começos de confusão, vi uma pancadaria embaixo da bandeira gigante de arco-íris, mas nada relacionada a homofobia. Briga de gangues mesmo, poderia acontecer em qualquer lugar. Os seguranças pegaram meio pesado, baixando o cacete nos garotos.
Das janelas os moradores saudavam a Parada. Uma avozinha linda fez uma produção especial, com iluminação própria para dar tchauzinho.

Única chatice eu diria era a música, house tribal do começo ao fim em todos os carros. Sugeriria uma maior diversidade de ritmos para a coisa não ficar cansativa.
A Parada terminou em uma praça com palcos e bares onde a festa enorme continuava – com mais tribal.

Na volta ao hotel fiz uma sauninha pra relaxar e quase perdi a hora. Às 9 e meia já estava de saída para o Miss Brasil Gay, acreditando que ia começar na hora. O estádio estava super bem montado, palco profissa, com cara de Miss Brasil mesmo. Dessa vez, a 30ª edição, até transmissão ao vivo para TV local teve.

Participei dos divertidíssimos bastidores, vendo a histeria das misses terminando a montação, catando a guerra de egos entre a guerra de egos entre as drags e trans que iriam desfilar antes do começo do concurso, confraternizando com os outros jurados. Fiquei meio tenso com a Pinky - tinha receio que ela tivesse lido o quanto desanquei ela durante o BBB, mas me pareceu bem fofa.

Tive meu momento passarela também, na entrada do júri – como era em ordem alfabética fui o primeiro a entrar. No júri estavam também a Salete Campari, o Flavinho Siqueira e a Preta Gil – que chegou animadérrima, pegou o microfone e botou fogo no público antes de dar sua pinta na passarela.

Depois de uma hora de agradecimentos e shows começou o concurso em si, com 29 candidatas. Sim, além dos 26 estados e DF, Fernando de Noronha e Ilha de Marajó também têm candidatas. Miss Bahia e Piauí já despontaram como favoritas, Miss Espírito Santo correndo por fora. Miss Rio Grande do Sul arrasou na performance de arara voadora e no lindo vestido.

Momento dispensável foi o show do Clodovil no intervalo – que veio de drag cantando La Vie Em Rose. Foi vaiadíssimo.
Não entendi porque a Miss Mato Grosso, sósia da Carla Perez, ficou de fora das semifinalistas. A Rio de Janeiro também, era melhor do que algumas das 12 selecionadas. A Santa Catarina, que teve uma dos melhores trajes típicos (vestida de neve) foi outra injustiçada.

Entre o Marlos Andreucci e eu sentou um jurado que afirmou que a Miss Bahia não poderia ganhar porque “negra não é modelo de beleza”. Ficamos totalmente pasmos com a declaração e iniciamos uma articulação com outros membros do júri para que ela ganhasse. Além de linda, sua vitória seria importante para dar um tapa na cara dos que ainda são capazes de fazer uma declaração racista dessas, ainda por cima em um evento gay!

Apesar do Marcelo do Carmo ter prometido acabar tudo até às 2h, na verdade a decisão final só veio às 4h. Miss Bahia na cabeça, Miss Piauí injustiçada (e inconformada) com o quarto lugar. Ela parecia tão arrasada que fui até falar com ela no final, aproveitando a soltura proporcionada por alguns uísques com guaraná.
A noite terminou com uma passadinha rapidíssima na X-Demente, com direito à vista da cidade do mirante do Cristo Redentor.

Domingo
A fila para check out no Ritz foi um evento à parte. Formamos grupo para almoçar antes da tradicional Feijoada no Sport Club - a indicação era ir mas não comer.
Acabamos chegando meio tarde e pegando a xepa. Pensei em assistir Zuzu Angel para matar tempo, mas solução foi baixar novamente na praça para mais uma seção de house tribal. Acho que vou ter uma esquemia se ouvir mais uma vez Because Of You. Ainda assisti o vídeo da transmissão do concurso para dar o tempo certo de chegar ao aeroporto e voltar a Sampa. Acho que ano que vem tem mais.  


Escrito por André Fischer às 15h12 Comentários Envie

Diário de Juiz de Fora 1



Avenidão


Geral do Palco do 30o. Miss Brasil Gay

Sexta
O dia começou com café-da-manhã no vôo da Pantanal depois de mais uma noite virada. Na chegada a Juiz de Fora fui diretamente conhecer a sede do MGM, o Movimento Gay de Minas, um grupo super atuante articulado. Na verdade se trata de  um legítimo Centro Comunitário gay no estilo dos centros americanos. Não vi no Brasil nada parecido, até agora. Um lugar para informar, acolher e acima de tudo, um ponto de encontro para jovens e aqueles que estão buscando sua identidade sexual.

Como o wifi do Hotel Ritz realmente funcionava ainda deu para dar uma trabalhada no notebook no quarto.

Pela tarde participei do debate Homossexualidade e Mídia, com a presença de muitos universitários interessados no tema. Falei da questão de direitos autorais em sites gays, tema que tem me mobilizado recentemente. Muitos sites fazem copy-paste das matérias do Mix sem pedir autorização e resolvemos notifica-los judicialmente. É uma maneira de fazer o mercado se profissionalizar.

À noite fui assistir o ensaio do Miss Brasil Gay no estádio do Sport, onde é possível ver as candidatas vestidas de homem, muitas de barba e bigode ou vestidas de mano. É no ensaio que é possível entender a transformação radical pela qual elas passam.

Depois uma passadinha na festa ao lado, cuja temática era Army. Super bem produzida, tinha exotismos como um helicóptero no meio da pista, garçon servindo champagne na sala vip vestido de recruta e Dimmy Kier poderosa na porta de milico.

O tema se justificava por ser dia do soldado. Ainda assim fiquei incomodado: primeiro porque glamurizar a guerra neste momento me parece um pouco fora de propósito e ainda por cima uma referência visual militar completamente americana. Mas o povo se divertiu, vai ver que era só cansaço meu. Saí cedo para dormir tranqüilinho no hotel.

    

   


Escrito por André Fischer às 15h12 Comentários Envie

Falar sobre drogas em público



Uma coisa é você escrever um diário íntimo. Outra é publicar o que você escreve, mesmo que seja em um mero blog perdido na rede. O texto passa a ser público. Ainda assim, acredito que a liberdade de expressar idéias deva ser irrestrita, ainda que possa haver excessos.

O controle do que deve ou não ser censurado sempre será subjetivo. O "consenso" pode ser usado como uma arma, e das mais perigosas.

A visibilidade traz sempre o risco de sofrer com opiniões pré-formadas e estar sujeito a todo tipo de interpretações. Difícil a tarefa de um jornalista, ou de qualquer um que escreva para outros, de não se render diante das pressões. Depois de dois ou três processos, perdidos ou vencidos, e uma dúzia de ameaças de processo, poucos são os que não se acovardam - ou para ser mais brando, se autocensuram.

Drogas, por exemplo, é um tema que praticamente deixamos de abordar no Mix Brasil. Importantíssimo, fundamental, principalmente quando nos dirigimos a uma comunidade onde as drogas são muito presentes. Com medo de se comprometer, não só nós aqui, mas poucos tocam no assunto.

Mês passado um conhecido morreu de over de GHB em um after, uma amiga está patinando no trabalho por causa do pó que cheira quase todo dia, outro não consegue se divertir com menos de 5 Es em uma noite. Uma conhecida vive em eterno estado de semi-lesação pelo uso constante de maconha. Já vi um amigo derreter de K no meio da pista várias vezes, cena das mais deprimentes que se repete sempre. E ninguém toca no assunto.

Posso falar com uma certa tranqüilidade por que não gosto de drogas. Fiz uso das químicas tradicionais só no final da adolescência, não usei as que saíram na última década. Fui natureba muitos anos, não gosto do efeito, sou vaidoso e acho que envelhecem. Fumo hoje em dia bem de vez em quando. Bebo, sim, mas não me encham o saco que isso é permitido. 

Acabei me afastando de muita gente que gosto, não por preconceito por eles cheirarem demais, mas por me deprimir ver alguém que gosto ficando chato, feio e neurótico.

Em países realmente desenvolvidos, como a Inglaterra e Holanda, a prevenção contra uso de drogas é questão séria de saúde pública. Só que não se tapa o sol com a peneira quanto ao uso recreativo, que é tolerado e justamente por isso é possível uma política de advertência quanto ao uso abusivo.

Se aquele cidadão fosse alertado que não deveria misturar GHB e álcool e se soubesse o limite de seu uso talvez não tivesse morrido. Dizer àquela pomba doida que ela não deveria se drogar e ponto final é puro cinismo. Com algum esclarecimento ele poderia ter decidido pelo N.A, por exemplo.

As casas noturnas, mesmo não estando envolvidas no tráfico, acabam sofrendo pressões por fazerem parte de uma difícil equação. A verdade é que sem drogas não há noite. A solução é acabar com a noite? Não soa razoável. Se as casas assumissem o compromisso de veicular informação real sobre as drogas - com a supervisão de algum órgão público comprometido em reduzir os danos do abuso - daríamos um passo para diminuir a crise das drogas e a hipocrisia em torno delas.

Sim, hipocrisia.

Fui a uma festa ótima de um casal evangélico semana passada e, como toda festa que se preze, no final estavam todos caindo de bêbados. Não haveria o menor problema, não fossem eles os mesmos que estariam no dia seguinte na igreja demonizando o álcool e todos que bebem. Bacana de verdade seria alguém ou algum grupo ter a coragem de tomar essa iniciativa.

Acho que devemos fazer aqui no Mix o que achamos certo: voltar a falar de drogas de uma maneira mais realista, buscando nos embasar com informações de instituições e profissionais que lidam com o tema.

Não dá mais para adotar um discurso irreal, ineficaz, simplesmente contrário às drogas. Alguém no mundo pára de usar drogas ao ver um cartaz 'diga não às drogas' ? Gimme a break!

É quase a mesma coisa que ficar parado vendo tanta gente legal detonando a vida bestamente.

 


Escrito por André Fischer às 15h00 Comentários Envie

Sistema Pessoal de Manias



A gente vai ficando velho e desenvolvendo um arsenal de ditas superstições que  se vão se acumulando pela vida. Quando nos damos conta, estamos com um monte de manias que nos parecem as coisas mais naturais.
A questão é que elas vão encontrando justificativas que parecem plausíveis e ficando cada vez mais difíceis de abrir mão. Umas podem ser meras frescuras, outras pura ranhetice.
Nesse ponto preciso parar para fazer uma primeira reflexão: vou eu aqui colocando tudo na primeira pessoa do plural como se isso acontecesse com todo mundo. SErá mesmo ou só uma forma de tentar justificar alçgo muito pessoal ?

Ontem mesmo me vi diante de uma dessas tais ‘superstições’ que justificaram sua razão de ser. Estava saindo para tocar n´A Loca, já estava na garagem e lembrei que ia levando a câmera no case. Acredito piamente que quando levo câmera a noite mica. A verdade é que muitas vezes que levei câmera acabou rolando algum problema. Junte-se o fato de que com câmera fico na função do trabalho extra de fazer matéria para o Mix. Rapidamente voltei e deixei a câmera em casa. E a noite foi um sucesso.
Quer ver outra esquisitice? Não consigo dormir sem assistir tevê pelo menos 5 minutos, não importa a hora. Se deito direto fica parecendo que estou perdendo alguma coisa. A complicação é que, talvez outra mania, não tenho televisão no quarto. O processo todo pré-sono inclui até um lugar determinado para a bandeja das laricas. 


Pensano bem , perto do que existe aí são até obsessões light. Já vi todo tipo de alteração, principalmente quando se trata de sexo. Geralmente as melhores trepadas são aquelas sem maiores encanações, quando o tesão rola solto, sem frescuras – e não me refiro a sexo seguro, que considero padrão inegociável.
Alguns podem chamar de fetiche, mas não passa de pura chatice aquele cara que vem com um monte de manias e coisas pré-estabelecidas na hora que justamente não deveria haver nenhum tipo de regra.

Podem dizer que bater pé pelas minhas manias advém do fato de morar sozinho há muitos anos. Já tive que ouvir que eram demonstrações de egoísmo. Na real, prefiro acreditar que são expressões da minha individualidade. E que jogue uma pedra aquele que não tiver também manias de que não abre mão.


 

 


Escrito por André Fischer às 14h59 Comentários Envie

O que vai ser da daslu?

 


A notícia de que grandes grifes estavam saindo da Daslu acendeu o sinal de que deveria conhecer o templo máximo do consumismo de luxo paulistano antes que ele fechasse. Nem que fosse pela questão jornalística mesmo, por pura informação.

Fiz minha estréia tardia em plena véspera dos Dias dos Pais. Ao contrário dos outros shoppings da cidade, estava quase vazio. Desde a abertura fiz parte do coro dos que achavam que a ostentação neoclássica do mastodonte na Marginal era pura cafonice, mesmo sem ter visto como funcionava. Os escândalos de sonegação fiscal envolvendo os proprietários só colocaram lenha e o resultado foi um bode completo com relação ao empreendimento. Agora, tendo finalmente conhecido o local, tenho uma impressão um pouco diversa sobre a Daslu.

Antes de xoxar, você já foi?

O prédio realmente é cafona, o neoclássico é uma praga arquitetônica que deveria ser banida de São Paulo - do planeta, se possível. Após passar pelo churrasquinho de gato e pipoqueiro na porta de entrada, que fazem lembrar que estamos no terceiro mundo, é preciso passar pelo portal que nos transporta ao paraíso capitalista. Como estava com uma amiga que é compradora assídua, não precisei morrer nos 40 paus do estacionamento.

Lá dentro marcas incríveis despertaram vontade de comprar - e há o que comprar a preços nem-tão-absurdos. O sistema de visitação é confuso, mas ao mesmo tempo dá uma sensação interessante se perder pelas tantas lojas e boxes de marcas. Armani e Prada fecharam mesmo, só os esqueletos que restaram dão um tom melancólico.

Nada de helicópteros e a seção de tecnologia, se existe, não encontrei. Na La Selva fui brindado com meu Sozinho na Cozinha em destaque na prateleira de livros de culinária ao lado do Jamie Oliver.

De todos as lojas de departamento que já vi mundo afora nada realmente parece tão, tão, tão... me falta a palavra. Seria chique? Foi planejado para ser chique, e mesmo sendo careta de dar nó, acho que chique é um termo correto para a Daslu. Além de ser prático para comprar boas marcas, todas estão ali concentradas.

Como não sou eleitor da Heloisa Helena (não me refiro aos milionetes revoltados, mas aos socialistas radicais) em princípio não vejo mal algum no comércio de artigos de luxo. Em uma cidade do tamanho de São Paulo e com o fascínio que existe aqui pelo consumo, nada mais natural. Bacana saber que, por exemplo, a única loja Burberry e a maior Vuitton da América Latina estão ali.

Impossível, no entanto, deixar de notar a breguice dos freqüentadores, prova de que nem dinheiro nem o acesso a informação são suficientes para mudar o gosto de alguém. As falcatruas todas tornaram a marca muito politicamente incorreta. Seria o caso de alguém assumir aquilo lá e tentar salvar? Fechar simplesmente seria uma demonstração de que não somos tão chiques (o país, digo) quanto imaginávamos. Mas será que se forem pagar todos os impostos direitinho aquilo ali ainda é viável?

Enquanto o PCC e outras quadrilhas instaladas em Rondônia, Rio e Brasília mandam e desmandam no país, o destino da Daslu é um dos tantos dilemas do nosso esquizofrênico Brasil.

    
    


Escrito por André Fischer às 14h58 Comentários Envie

Vou me dedicart aos esportes




É uma decisão. Tomada na emoção, no meio do calor dos OutGays, eu sei, mas espero levá-la a frente - e competir em Copenhague em 2009. Ainda falta escolher o esporte, mas acho que será um individual, natação pode ser uma boa idéia, os competidores são muitos e o vestiário bem animado. Estarei competindo com os seniores (não se iluda, depois dos 32 todo mundo é senior nos esportes). Para ganhar uma medalha talvez escolha algo como arremesso de martelo - hoje só havia até três competindo em cada categoria de idade, o que garantia medalha a todos. Bacana ter um compromisso a longo prazo que envolva esforço físico e dependa apenas de mim mesmo. Gosto de trabalhar com metas e essa é uma que terei o maior prazer em cumprir. Além disso os resultados já poderão ser sentidos - e desfrutados - antes mesmo do prazo final. Gosto também da idéia de fazer parte de uma nova comunidade, atletas gays - categoria que praticamente inexiste no Brasil.

Outro objetivo que gostaria de atingir seria a formalização de algo como uma câmara de comércio glbt, para dar uma profissionalizada na atrasadérrima cena gay brasileira. Sim, avançamos em alguns pontos, como alguns direitos e na realização de Paradas, mas estamos anos luz atrás em termos de movimentação comercial em relação ao chamado primeiro mundo.

Nosso atraso parece nunca acabar.

Ontem os brasileiros aqui em Montreal conversávamos se algum dia teremos algo como os OutGames no Brasil, lembrando que São Paulo postula sediar o evento em 2013. Sinceramente, acho que não tão cedo, a não ser que haja uma mudança radical de mentalidade e uma mobilização de muitos. Não vai ser meia dúzia de ativistas e entusiastas que mudarão o cenário. Falta organização, sentimento de comunidade e conscientização.

Está certo que somos bem diferentes da India ou Bolívia, mas falta muito chão para chegarmos ao ponto que atingiu o Canadá, por exemplo. Não é uma casa noturna nem um site que vão mudar o panorama e para isso seria necessário o engajamento de uns tantos milhares de gays e lésbicas. Só aqui para os OutGames são 5 mil voluntários trabalhando. Durante a desanimada Parada Gay de Montreal as pessoas jogavam quilos de moedas de 2 dólares na bandeira do arco-íris para demonstrar seu apoio. Lojas de departamento, bancos e outras instituições "caretas" apresentam vitrines e campanhas dando apoio à comunidade.

Conversando com Mark Tewksbury ele sugeriu que primeiro o Brasil deve tentar organizar jogos locais (os Outgames começam a ter edições regionais a partir de 2007) antes de dar um passo desse porte.

Talvez começando pelos esportes mesmo seja mais fácil. Encontrar um grupo de amigos que queria treinar - e competir - juntos, indo a eventos deste tipo fora do Brasil para começar. Foi assim que com as Paradas Gays até meados dos anos 90. Vamos ver se começando agora alguma coisa muda até o final desta década.

Se não houver uma mudança na consciência glbt, pelo menos em 2009 estarei com corpão em cima. 

  


Escrito por André Fischer às 14h42 Comentários Envie

MInha primeira comunhão

 



Rev. Gene Robinson


Bispo de Montreal


A catedral cheia


Estandarte gay na procissão



Ontem à noite tive uma experiência muito distante do que esperava ao vir para Montreal para um mega evento gay como os OutGames.
Fiz minha primeira comunhão.
Explico como cheguei lá.
Sabe o Rev. Gene Robinson, aquele que se assumiu gay e quase causou um cisma na Igreja Anglicana quando foi eleito Bispo de New Hampshire? Falamos muito no Mix sobre ele, escrevi mais de uma vez na Folha sobre o episódio. Ele realizou uma missa com o bispo de Montreal na Catedral, muito apropriadamente chamada OutMass, e eu fui lá ver o que ele tem a dizer.

Fiquei impressionado ao chegar e ver a Igreja decorada com bandeiras do arco-íris e uma pequena procissão com reverendos, reverendas (uma, inclusive, com cabelo azul) e capelões levando um estandarte do arco-íris que ficou no altar. Inimaginável algo assim em uma Catedral Católica.

Depois da introdução do Bispo de Montreal e de um belo canto do coral, veio a homilia (será esse o termo para anglicanos?) do Bispo Robinson. Ele começou fazendo piadas sobre o calor incrível dentro da igreja (disse que ninguém sofria com o bafo mais do que ele e o bispo). Toda sua fala, quando se referia a "nós gays e lésbicas", versava sobre preconceito, aceitação, sempre emocionado e com muito humor.

Anunciou más e boas notícias: as más eram que as coisas não vão mudar logo, principalmente na Igreja. As boas é que elas vão mudar com certeza e que é certo que um dia gays e lésbicas serão incluídos, da mesma maneira que foram negros e mulheres. Lembrou ainda que devemos amar aqueles que nos odeiam, entender seus medos. Disse que nos dias de hoje é mais difícil um religioso se assumir para um gay do que um gay para um religioso, lembrando que Deus precisa do nosso testemunho.

Ao final, foi aplaudidíssimo.

Os belos cantos, o contato pessoal com outros fiéis através dos votos de paz e apertos de mão em uma igreja repleta de gays e lésbicas me tocou profundamente.

Ao final, na momento da comunhão, vários casais gays se dirigiram ao altar de mãos dadas. No programa distribuído havia uma menção que todos cristãos batizados eram convidados.

Cheguei a ser batizado na Igreja Católica - meus pais aceitaram fazê-lo para não criar problemas om meus avós paternos, mas já não eram mais católicos e por isso nunca cheguei a fazer o catecismo e a primeira comunhão.

Recentemente, minha irmã abraçou a fé católica e fez sua primeira comunhão.

Senti que era um momento especial, fazer minha primeira comunhão em uma missa assumida, com um bispo cujo trabalho acompanho há anos e admiro. Recebi a comunhão, cantei em inglês e me senti muito bem.

À noite, programinha bem mundano. Fui no Twist ver a Mistress Barbara. Technão meio chato, achei. Preferi ficar no terraço - o calor lá dentro estava insuportável e cheio de gente bonita - e ficar na pista meio-black-meio-latina-mais-mista no andar debaixo. Já repeti mil vezes isso aqui, mas não tenho mais muito saco para techno bobo e montes de gays derretendo de bala.

   


Escrito por André Fischer às 14h40 Comentários Envie

Montreal: universo gaygaygay no primeiro mundo

Duas semanas refletindo sobre a situação e experiência gays no mundo. Ahã, esse é o principal motivo para estar em Montreal. As tantas festas e clima de celebração que estão presentes em todos os lugares, mas essa ainda não é uma prioridade, pelo menos para mim.

O calor inusitado para os locais (quase 30 graus) faz com que apenas nos Fóruns empresariais se veja pessoas com terno e gravata. De resto, todo mundo de bermuda e muitas, muitas havaianas.

Acima de tudo que você pode acompanhar na cobertura dos eventos dos OutGames, o que mais impressiona é o comprometimento dos organizadores, financiados basicamente pelos governos locais e empresas do setor público, em realizar um evento de proporções inéditas para o segmento glbt e de maneira ultra-profissional. Difícil imaginar algo do gênero acontecendo no Brasil, onde a falta de articulação e esculhambação parecem ser um carma difícil de ser superado.

A queima de fogos de ontem parecia com a de Copacabana no Réveillon - imagine a prefeitura do Rio ou São Paulo investindo tanto assim para marcar abertura de um mega evento gay. Lojas com vitrines de arco-íris e/ou manequins em poses esportivas com toques gays - a mais divertida reproduz uma corrida de sadomasoquitas em couro. Jornais com fotos imensas coloridas sobre o evento na primeira página todos os dias.

O negócio glbt levado a sério.

Durante a conferência sobre negócios glbt ficou claro que a mobilização da comunidade é que faz as coisas desse jeito, e não esperar ações paternalistas das autoridades - como o que parece acontecer no Brasil.

Há tempos não fazia uma viagem de trabalho tão ativista no sentido estrito. Me faz lembrar aquelas viagens para ver Paradas Gays antes das nossas começarem a acontecer. O Brasil ter 106 Paradas, incluindo a maior do mundo, enche os olhos de um desavisado. Mas aqui se discute um fórum global de associações de empresários glbt, enquanto por aí não conseguimos emplacar nem uma reunião de empresas simpáticas à causa.

Vendo o nível de discussão que a questão glbt alcança por aqui, faz ver que nossos avanços estão longe de serem suficientes para nos tirarem do atraso. Ele continua igualzinho ao que sempre foi.

Hoje vou me jogar nas festas do Village. Pelo menos nesse quesito São Paulo e Rio não fazem feio...
 

 


Escrito por André Fischer às 14h30 Comentários Envie


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