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29/06/2006

Copa na Argentina e Limonada com pouco açúcar

Os presentes do acaso sempre devem ser bem aceitos, ainda que não sejam muito claros a princípio. Tipo gostar de verdade da tal da limonada com pouco açúcar mesmo.

Esse fim-de-semana planejava uma desligada rápida bem longe do frio, pegando uma praia bacana no Caribe, acreditando nas milhas. Só que a Companhia cancelou o vôo já no aeroporto. As opções eram duas: voltar para casa e aceitar esse previsível faux-pas ou arriscar um vôo seguinte para um país próximo e tentar conexão no dia seguinte. E arriscar esperar a FAB buscar na volta ou morrer numa passagem na tarifa de balcão. Muito trampo, por um finde esticado.
Na fila d´a Companhia, apareceu Buenos Aires como único vôo confirmado do dia, saindo logo depois. Incrédulos, topamos embarcar para um inverno de sete graus com as malas cheias de bermudas, sungas e sandálias. E só. Melhor do que voltar frustrado para casa, melhor coisa a fazer. Em trinta minutos de Internet e telefonemas, amigos contactados, hotel escolhido fomos para Palermo, o Soho,....e às compras.
Fim de semana entre o calor do quarto do hotel, batendo perna na vizinhança e assistindo aos jogos da Copa entre parillas.
Sim, caí de boca.
Voltar a comer carne tem essas vantagens, existe a Argentina aqui do lado.

No sábado teve Argentina x México e fomos assistir, é claro em um restaurante com a torcida Argentina. Havia uma mesa que torcia pelo México que pulou logo no início e criou um clima meio pesado. Tensão total até o empate. O segundo tempo fomos para a Galeria Pacifico, praça de alimentação lotada em volta dos plasmas vendo o jogo. Nas lojas também tevês ligadas, mas gente comprando e gente vendendo.
E na comemoração, em frente a uma bandeira brasileira a torcida parou e cantou por muito, muito tempo um hino que não entendi muito bem a não ser o final, um ´hijo de puta´ bem claro.
Portugal X Holanda o comércio já estava fechando no domingo e ainda consegui ver embaixo das cobertas aquele segundo tempo triste.
Finzinho vergonhoso de Itália X Austrália vi em uma banca de jornal na Santa Fé. O micoléu das bolas fora da Suíça contra o gol ucraniano foi tomando um capuccino em um café cheio.
Sim, todo mundo assiste, mas o país não pára.
Brasil X Gana começou no hall do hotel depois do check out. Mas o staff amiguinho mal se segurava torcendo contra nós. No restaurante as mesas visivelmente torciam por Gana, não disfarçaram que meu grito de gol, ainda que o mais discreto possível, era quase uma afronta.

Na volta só houve uma escala não prevista em Porto Alegre, mas a Companhia nos deixou em Guarulhos sãos, salvos e com um quilo e meio a mais.


Ah sim, a vida gay...
Clica aqui para dar uma olhada no Roteirão que fiz em Buenos Aires.
Em Hot Pixels, publiquei um ensaio com grafites safadinhos das ruas de Palermo.

E vê o Blog da Renata, que foi na manifestação da Paulista contra o país que pára na Copa. 


Escrito por André Fischer às 11h48 Comentários Envie

22/06/2006

A Quarta
22/6/2006
Copa do Mundo, não adianta, o foco é distraído pelos jogos. Jogo do Brasil até dá para parar total, não há muito o que fazer além da transmissão g(G?)lobal - e de acompanhar a agonia da Varig. À noite recuperando o perdido durante o dia (Costa do Marfim X Servia & o montenegrino, você viu?). Mais um dia intenso, cheio de emoções intensas, do jeito que têm sido os dias.
E dá-lhe Pasalix.
*
Sex & The City é o nosso Mágico de Oz. A geração que fez Stonewall lá nos anos 60 era pré-adolescente nos tempos da Dorothy e transformou em clássico sua fantasia infanto-juvenil. Celebramos no Dia do Orgulho Gay esse sonho transformado em ícone de afirmação de identidade através da menina atrás do arco-íris.
A figura mitológica dos 00 que elegemos vive em uma cidade bem real e têm quatro manifestações. A romântica, a profissa, a sexualista  e a sininho-peterpan. Tenho muitos momentos Charlotte, Miranda permeia meu dia e já me estive bem mais Carrie.
Hoje baixou a Samantha, escolhendo no laboratório as melhores fotos para ampliar de um ensaio nu. Está na hora de enquadrar, fotos bem bacanas que o Rafa Assef fez pra um perfil que saiu na TPM. Quero colocar no quarto, são um bom registro em uma boa fase, física quero dizer. Aproveitar que ainda está tudo bem parecido com elas.
Me dou conta que só o que fiz foi uma versão Pinheiros para uma cena que já vi em Downtown Manhattan no Multishow. Quase cópia, drag queen.
Mas sem nenhum photoshop. Mesmo.
*
Essa semana que começou belga ainda tem a delicinha do Vive la Fête. Pra completar, fim de semaninha off off.
 


Escrito por André Fischer às 12h19 Comentários Envie

O Karma da Compreensão
20/6/2006
Acabei de assistir sozinho Adorável Julia. Ontem depois de assistir A Criança no Reserva, ainda assisti, bem acompanhado, Impulsividade. Saudades de Londres, vontade de descobrir a fórmula da tal pílula que muda gênios. Só mesmo o cinema para conter o turbilhão de pensamentos pós-Parada e pré-tudo-que-vem-por-aí.

*

Tenho sido acometido por uma incontrolável repetição da frase ‘eu entendo’. Lembra o “It´s Beyond My Control” de Valmont em Ligações Perigosas. A verdade é que eu entendo tudo mesmo. Erros, inseguranças, pobreza, inveja, escrotidão. Não posso dizer que concorde, ah isso não. Mas entendo. Isso muda a maneira de ver e viver a vida. Não gera revolta, nem ódio. No máximo insônia. Mas nada que uma dose dupla de Pasalix não resolva.

*

No sábado fizemos, o MixBrasil e XXY em parceria com a Cads, o que eu considero a melhor presença de toda a história das 10 Paradas. Digo isso sem nenhuma falsa modéstia, pois estive em todas elas. Um camarote de verdade, simples, sem marcas ostensivas, no tamanho exato, sem apertos, intendência perfeita, todos os amigos que chegaram entraram e puderam ver tudo com conforto, na melhor localização. Do jeito que a gente sempre sonhou. Fizemos a primeira transmissão on line da Parada, chique, servidor do UOL lotado, gente do mundo inteiro assistindo.

Houve alguns incidentes desagradáveis, é verdade, mas só soube depois. No jantar comemorativo, recebi telefonema da Visa dizendo que haviam sido realizadas 10 compras nas últimas duas horas com meu cartão, várias em um açougue e uma n´O Boticário. Descubro que minha carteira, com todos meus documentos e cartões de crédito tinha sido roubada. Meu palmtop também foi. Ainda bem que o ladrão não era bicha conhecedora de marcas e não levou a bolsa, que custa três vezes o preço do palm.
Coisa feia: desfrutar, beber e comer numa festa bacana e roubar o anfitrião. Chorei de raiva, mas entendo. O miserável vai ter que viver com essa karma triste enquanto eu treino Desapego. E a Polyana aqui vai ter que comprar um palm com wi-fi logo de uma vez.
Tive que ouvir uma pobre alma dizer “bem-feito” ao meu assalto. Pode? Tenho uma certa pena do cidadão, mas até entendo. Tem uns que sofrem com o sucesso alheio. Pena só que a gente tenha que ficar cheio de dedos ao demonstrar felicidade.

*

E a Parada que foi tão rápida... Acho que era uma agonia dos organizadores para acabar logo. Agora que passou dá pra contar. Dessa vez foi um verdadeiro parto, quase não aconteceu. Teve ameaça de cancelamento até a última hora. Entendo: não deve ser fácil fazer um evento deste tamanho todo ano no maior sufoco, sem maiores apoios, sem conseguir uma contrapartida. Mas entendo também que em vez de brigar com todo mundo o ideal era mudarem o discurso, abandonarem o papel de emburrado, abrir mão do controle e virar gente grande.
  


Escrito por André Fischer às 12h17 Comentários Envie

Parada, Copa e Negócios

Parada, Copa e Negócios
13/6/2006
Aproveito o intervalo do Brasil X Croácia para fazer um post rápido, já que aqui no Mix só eu mesmo estou assistindo o jogo. Todo mundo trabalhando, preparando nossa participação na Parada Gay.

Finalmente definimos nosso camarote no vão livre do MASP. A parceria com a Prefeitura, sobretudo a CADS, e mais outros tantos apoios viabilizou essa presença bacanérrima. Vai ser incrível assistir à Parada toda bem localizado, já que esta pode ser a última da Paulista. A redação do Mix vai se transferir para lá também.

Queria fazer um comentário sobre a Pride & Attitude, a Feira de Negócios GLS que aconteceu na Bienal este final de semana. De público não foi lá essas coisas, mas significou um momento importante para quem estava lá. Significou um marco importante da profissionalização do nosso segmento, prova de que estamos virando gente grande. A presença de grandes empresas como Amsterdam Sauer, Banco Real, Honda, Santander, Warner e SAA, entre outras tantas mostrou que as corporações estão abrindo os olhos para o público gay.

Para o Mix a presença se traduziu em negócios concretos, que você começa a ver por aqui traduzido em campanhas publicitárias e parcerias que foram estabelecidas ali já nas próximas semanas.

Estamos mesmo virando gente grande.

Só faltou a Feira se assumir, ser mais gay mesmo. Não ter medo de usar os ícones da nossa comunidade: DJs, barmen, drags, modelos com pouca roupa. Eles atraem público e não se deve ter vergonha disso. As grandes empresas devem se acostumar com essa linguagem visual e esperam justamente o público que vem desfrutar disso.

E vale o toque... Já está na hora de acabar com o discurso da chorumela. Os anunciantes não têm mais tanto medo, já desenvolvem uma curiosidade até. Prova disso são as páginas do Mix lotadas de banners, o Festival bem de patrocínios.
O preconceito da sociedade e do mercado está diminuindo.

Temos que nos livrar do papel de pobres coitados perseguidos, que me parece mais um vício e uma preguiça de mudar, sob pena de não aproveitar as oportunidades que claramente se colocam. 
 


Escrito por André Fischer às 12h16 Comentários Envie

Brochantes Profissionais
4/6/2006
Não tem Viagra certo para quem quer acabar com o prazer alheio
 

Tem gente que gosta de acabar com o prazer alheio. Não se sentem satisfeitos enquanto não cortam a onda alheia. Os motivos podem ter as mais variadas origens: infância infeliz, pau pequeno ou simplesmente uma deformação de caráter. Ao invés de fazerem terapia para resolver seus problemas, preferem assumir o triste papel de brochantes profissionais.

Foi algo assim que acabou com o que prometia ser a festa do ano. O aniversário do Vegas, que reuniria 30 DJs e atrações internacionais em várias casas na Rua Augusta, expondo a divertida vocação Las Vegas de uma área ocupada por puteiros. Até Gilberto Dimenstein fez artigo valorizando a iniciativa, que reforça a vocação paulistana como uma das melhores cenas noturnas do planeta na atualidade.

Pois às seis da tarde no meio de uma reunião recebo telefonema de alguém da produção dizendo que o evento teria sido cancelado e transferido para The Week. Eu seria um dos DJs do evento, abrindo o puteiro electro, e havia preparado um set incrível, divertidíssimo. Achei a princípio que era trote. As dezenas de telefonemas que se seguiram não deixaram dúvida.
Logo depois ficamos sabendo que o Almada havia sido ameaçado, se abrisse para a festa do Vegas poderia também ter sua casa autuada.

Como a cidade está se especializando na velocidade e volume dos boatos, na noite de sexta-feira, falou-se de tudo. Os rumores mais ouvidos eram que o dono de uma casa concorrente, com forte influência política, teria mandado fechar ou que a polícia não tinha conseguido a propina pedida para liberar o evento. A primeira tinha até um certo humor como fofoca, mas não fazia realmente nenhum sentido. A segunda, em função do histórico cabeludo da instituição, até poderia ser verdade. Mas também não era.

A imprensa foi chamada para cobrir a palhaçada da intervenção. A idéia era promover um factóide, de que havia uma preocupação com as condições técnicas de casas que abrigariam o evento. Mas se todos já sabiam da festa há semanas, porque não fazer uma vistoria dias antes, apontar as irregularidades para que houvesse tempo de corrigi-las e que o evento pudesse acontecer. Porque frustrar as mil e tantas pessoas que já tinham ingresso e as centenas envolvidas na produção. Pra que? Pra que boicotar até mesmo o remendo que seria a transferência da festa para Lapa? Ficou com jeitão de perseguição.

Saí ontem na madruga, fazendo uma matéria para Folha sobre outro assunto. A revolta era generalizada, com declarações espontâneas do garçon do boteco ao dono da sinuca contra a atitude de quem mandou acabar com a festa.

A sensação que ficou foi de uma vontade política de detonar a noite.

Só falta agora instituírem horário de fechamento de casas noturnas, como aconteceu em Bombaim quando um governo ultra-conservador tomou posse ou na Assunção em eterno estado de sítio de Stroessner.

Gostaria mesmo de entender melhor o que passa pela cabeça dessas pessoas....

  


Escrito por André Fischer às 12h14 Comentários Envie

Qual é o caso?



Postado originalmente em 30/5/06

Uma série de questões são levantadas quando se começa a trepar com alguém várias vezes sem que a situação evolua claramente para um namoro. Dizer que não rola nada é tapar o sol com a peneira. O que às vezes pode ser a melhor opção.
Algumas variáveis podem determinar a inviabilidade do namoro: se um ou ambos estiverem comprometidos, se o clique só acontece durante o sexo e nunca fora dele, ou se houver uma indisposição de um ou ambos para a própria prática do namoro.
Afinal de contas, a partir de qual momento uma transa se torna um caso? Seria apenas uma questão de freqüência, intensidade ou objetivo? A denominação depende de um acordo entre as partes?

Cada um sabe de seu caso e não fala muito dele fora da terapia. No máximo com os amigos mais íntimos. Se não, deixa de ser um caso e vira um namoro mal assumido.

Só para deixar claro, não faço parte da velha guarda que chama namorado de caso. Acho cafona e impreciso. Caso é bastante específico, algo que não pode acontecer às claras nem com o conhecimento de todos. O próprio Houaiss diz que caso é “relação amorosa, especialmente a clandestina, cacho”.

Um amigo casado anda saindo com outro casado há quase dois anos. O complicador é que são dois casais amigos e que não têm suas relações oficialmente abertas. Eles se encontram em motéis das cidades vizinhas no fim de tarde. Depois de quase uma centena de trepadas clandestinas seria natural considerar que eles têm um caso. No entanto quando perguntei ‘como anda seu caso com fulano’, ele fez a linha chocado. Disse que nunca havia pensado dessa forma, que eles só fazem sacanagem. Então fica assim. Caso realmente parece uma coisa retrô, como aqueles pais de família rodrigueanos que mantêm casos por anos antes de se desquitarem. Tijuca pura.

É claro que há uma diferença entre sacanagem e paixão. Caso entre homens não tem ‘te amo’ sussurrado no ouvido, não tem demonstração pública de afeto, não tem presentinho que deixe rastro. É típico de mulher - e de mulherzinha - romantizar um caso.

Pode não ser o amor da vida, mas também é diferente de uma farmácia de plantão - aquela que sempre atende uma chamada fora de hora mesmo que a última tenha sido há mais de um ano.

O caso é simplesmente um relacionamento que não pode ser. 

  


Escrito por André Fischer às 12h13 Comentários Envie

A Concepção e os Trânsitos de Saturno

POstado originalmente em 22/5/06




Você já assistiu A Concepção? Fui preparado para gostar. Faz tempo que não vejo um filme brasileiro que preste. Pelas informações que li aqui no Mix e pelo trailer achei que ia gostar. Já freqüentei muito Brasília, conheci a onda da liberação geral que rolava nos anos 80 e comecinho de 90. Acho que hoje a cidade está bem,bem careta. Mas como o filme não identifica exatamente quando é passado, bem pode ter sido naquela época. Ah, e ainda tem a cena do Julio, Milhem e Mateus que vale a compra quando sair o DVD.

A destruição do ego com a formulação de uma nova identidade a cada dia, somado à entrega total aos prazeres do sexo sem nenhum tipo de barreira e o esforço para apagar qualquer tipo de memória são a base do chamado Manifesto Concepcionista, seguido por um grupo de jovens da capital. Na prática todos trepam com todos, usam cartões de créditos e cheques alheios e devem encarnar um novo personagem diariamente, que nunca se repete. Parece uma vida de sonho pós-hippie, com drogas diferentes.

Os concepcionistas se concentram na casa do delicioso Alex (Juliano Cazarré, veja entrevista), que no final das contas banca a loucura de todos.
Tentação grande pensar em uma vida sem nenhum tipo de amarras. Mas o próprio filme acaba tendo um final que já ouvi chamarem de moralista. Cagada total, escândalo, polícia, morte. Eu diria realista.

Não há inconseqüência sem conseqüência.

Saturno, que atualmente está aspectado em meu mapa oferecendo tanto com uma auspiciosa conjunção com meio do céu quanto com uma suspeita oposição a Vênus, pressiona todas relações, sobretudo as mais íntimas. Minha quase-sempre light Vênus em Aquário querendo viver a Nova Era com Saturnão em Leão dando os limites lá de cima. Para completar Urano fazendo oposição a Urano, se é que você me entende.

Não é mole não. Nem para mim, nem para amigos próximos, nem para aquele que escolhi para estar ao meu lado.
Uma premência de estar em vinte lugares ao mesmo tempo, achando tudo muito lento, quase nenhum sono nunca. Tomara que me aguentem. Tomara que eu me aguente.

A astrologia proporciona a sabedoria de que todo trânsito, assim como os filmes, tem um fim.

Só que ao contrário de A Concepção, eu posso mudar o fim. E o meio.

 


Escrito por André Fischer às 12h12 Comentários Envie

Cada país tem o 11 de setembro que merece



Postado originalmente em 15/5/06

Cheguei a São Paulo ontem no meio da tarde. Amigos no Rio ligavam sugerindo que não pegasse o avião. O clima era de histeria coletiva. Congonhas estava semi-evacuada. Como a 23 de maio estava parada, decidi pegar o metrô. Às quatro da tarde de uma segunda-feira estava mais lotado do que uma véspera de feriado na hora do rush.

Encontrei o escritório vazio, com apenas duas pessoas. Todos haviam cedido à boataria louca e foram embora, acovardados. Fizeram, como todo o resto da cidade, exatamente o que queriam os bandidos terroristas.

Tive uma reunião que estava marcada para às cinco. Felizmente nem todo mundo parou. Trabalhei até às nove, mas não consegui malhar depois. A academia também estava fechada. Uma amiga astróloga justificou dizendo que mercúrio estava quadrado com netuno. Talvez por isso até o namoro tenha sofrido com uma notícia-bomba.

Já passei por dois momentos terroristas semelhantes.
Estava em Paris na época dos ataques à Tati, bem na esquina quando a bomba explodiu. Por uma questão de civismo, a cidade continuou vida normal, apesar das revistas até mesmo nos cinemas.
E no Rio no dia que os traficantes decretaram toque de recolher. A população amedrontada ficou em casa. Saí com minha sobrinha pelas ruas de Ipanema desertas, para não ceder ao medo. Apenas a Livraria da Travessa estava aberta. Desde então, passou a ser meu lugar favorito no bairro. Apenas eles entenderam a importância estratégica de manter as portas abertas.

Somos um povo preguiçoso, covarde. O crime organizado só tomou o tamanho e importância que tem hoje porque permitimos, fechando os olhos para o que estava acontecendo. Sempre foi mais prático negar do que combater.
Não exigimos direitos, só queremos festa. Por isso a Parada Gay reúne dois milhões de pessoas e nenhum direito é conquistado. Por esse mesmo motivo ela pode sair da Paulista e ninguém vai fazer nada.

Fica fácil dizer que os americanos mereceram o 11 de setembro por sua empáfia imperialista. Que os ingleses e espanhóis mereceram os ataques aos trens pelo apoio à injusta invasão do Iraque.
E nós, não merecemos as cenas trágicas e patéticas dos últimos dias ? 


Escrito por André Fischer às 12h09 Comentários Envie


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