26/04/2006
A Rainha Má
Anderson se observa atentamente, sozinho e nu no seu closet.
Espelho, espelho meu, existe homem nesta cidade tão atraente quanto eu?
Tanto quanto você, alguns. Mais do que você, muito poucos, responde a superfície espelhada.
Então porque não consigo um namorado? esbraveja sem obter resposta.
Quando veio estudar em São Paulo, Anderson achou que finalmente encontraria um parceiro. Perto de sua família e de toda pressão da sociedade da sua pequena Assis natal jamais conseguiria expressar sua forte sexualidade. Desejado por primos, peões e amigos nunca conseguiu passar da brincadeira do troca-troca, limite do sexualmente tolerável.
As aventuras começaram na própria USP, onde conseguiu até que o mais desejado hétero de todo campus ficasse de quatro,
literalmente, por ele. Só que quando mencionou um envolvimento emocional, o cara quase riu, e disse que já tinha namorada.
Passados os anos, isso acabou se tornando um padrão. Mesmo desistindo dos caretas, acabou sempre se interessando apenas por outros homens engajados em relacionamentos.
Oportunidades para todo tipo de sexo não faltam. No clube, no supermercado, até mesmo no seu condomínio. Mas ele quer mais.
Dentista bem sucedido, no auge da forma física, é constantemente assediado pelas clientes e pelos clientes. Com mulheres não quer nada. Quanto aos homens que se oferecem em sua cadeira reclinável do belo consultório da Vila Mariana, prefere não misturar trabalho e sacanagem. Muito raramente, uma vez ou outra para ser totalmente fiel à verdade.
No entanto desenvolveu uma espécie de obsessão. Sem se dar conta acabou criando um faro, uma atração inexplicável. Prefere atacar homens namorando ou casados. Independente de serem especialmente gostosos, sente um frisson que lhe move na direção desses tipos.
Nem precisam dizer que têm parceiros. Até mesmo porque geralmente não abrem seu status conjugal.
O ritual se repete sempre. Depois da conquista, durante a trepada, o frisson se transforma em um misto de raiva e inveja. Venera aquele homem por ter outro homem e o odeio por isso. Sequer consegue relaxar e ser passivo. Só pensa em comer os caras para ficar claro que está no domínio da situação.
Quando goza, um sentimento ruim toma conta. Não é arrependimento. Anderson queria estar com SEU namorado naquela hora. E então vem uma vontade incontrolável de acabar com a felicidade do outro, detonar o namoro que não tem.
Suas estratégias para incluem de chupões, recados na secretária eletrônica (no caso do outro ser casado) e colocar mensagens bandeirosas no orkut. Tem um especial prazer em imaginar a quizumba que essas ações causam ao casal.
Justifica suas atitudes pensando que, se estivesse namorando, jamais trairia.
Mas não pode ter certeza de que isso seria verdade.
Aos 29, Anderson nunca namorou de verdade.
| Escrito por André Fischer às 17h05 | ![]() |
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Vocês querem bacalhau ?
18/04/2006
Recebi e-mail de leitor no começo da noite e até agora fiquei pensando em como responder...
Acho uma questão concernente e por isso abro aqui o que me passou pela cabeça entre supinos e halteres.
Ele diz que corro risco de perder “território conquistado” pelo fato de não freqüentar a Farme no Rio nem a The Week em São Paulo. O fato de estar ‘fora do gueto’ (usando palavras dele) estaria me afastando do público gay.
Será ? Fiquei pensando se, por escrever um livro que não seja de temática gay (prepare-se então para o próximo...), viajar para fora dos destinos tidos como apropriados a gays e falar até de temas mais espirituais, estaria passando alguma mensagem errada.
Será que estaria parecendo menos gay e com isso me afastando do meu foco profissional ? Será que atenderia melhor às expectativas dos leitores se abordasse temas mais específicos do dito universo gay? Será que é o caso fazer o Chacrinha e jogar bacalhau para as terezinhas? E finalmente, será que o público gay realmente se limita a esse circuito ? Poderoso, com grande visibilidade mas pequeno numericamente se comparado a imensa diversidade de tipos que compõem essa enorme audiência (no caso de nossos sites e todos os lugares onde escrevo estamos falando em milhões de almas).
Acho que em tudo que faço existe sempre um olhar que podemos chamar de gay, simplesmente em função das coisas que vivo e vivi.
Fato é que nunca fui muito de boates ou circuit parties. Vez ou outra, vou lá dar uma checada no movimento.
Engana-se quem acha que estou fora do circuito. Saio bastante mesmo (esse feriado, por exemplo, foi uma jaca só) e os lugares que freqüento são cheios, lotados de gays. Boa parte completamente alheia ao tal gueto, mas nem por isso menos assumidos.
Nada contra o gueto, amigo. Muito pelo contrário.
Apenas acho o circuitão tradicional gay tão interessante quanto um jantar árabe, um concerto ou um boteco bem bagaceiro do Centrão. Divertido, mas se repetir todo dia, enjoa.
Felizmente hoje trabalho com uma equipe de pessoas bem diferentes, com interesses diferentes, que cobrem assuntos diferentes para o Mix e todos os nossos outros sites. 
Diariamente temos reuniões de pauta onde trocamos as mais diferentes experiências, sempre em torno do universo de interesses gays.
Por isso, caro leitor, entendo e agradeço sua preocupação.
Fique tranqüilo que no Mix e em tudo que faço sempre haverá espaço para a noite gay, a cultura gay e a putaria gay. Só que, além disso, vamos crescendo também em outras direções.
E com isso conseguindo falar com cada vez mais pessoas. Gays e não-gays interessados nesse conjunto, cada vez maior, de temas e reflexões.
Como diria o velho guerreiro, quem fica parado é poste.
| Escrito por André Fischer às 01h21 | ![]() |
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Viva quem vive
13/04/2006
Noite estranha a de ontem. Saí direto da academia para o super, momento compra de ovos de páscoa. Como sempre acontece, cheguei à meia-noite no caixa, hora que invariavelmente o supermercado pára para ‘zerar o sistema’. Parece que não aprendo.
Na madruga assisti um programa da Regina Casé no Futura (acho que se chama Novos Velhos) onde entrevistava a Dona Canô. Aos 97 anos ela diz que a vida ficou ainda mais animada depois dos 70, pois pôde começar a viajar à vontade. E que como filosofia de vida tem o lema “viva quem vive”. Assim, pura e simplesmente viver cada momento, sem se preocupar com nada, principalmente com o futuro. Nem deixar nada pendente no passado.
Isso me lembrou os ensinamentos de Krishna a Arjuna na Bhagavad Gita, um trecho muito especial do Mahabharata, uma das escrituras sagradas do hinduísmo, que decidi começar a reler antes de dormir.
Sim, momento religião. Já ouviu falar ? Vou resumir muito por cima do que se trata.
Arjuna foi para guerra defender seu reino, herdado de seu pai Indra. Ao chegar no campo de batalha descobriu que amigos e parentes estavam lutando ao lado do inimigo. O arqueiro quase arregou, pois teria que matar entes queridos. O divino Krishna, de quem era amigo e devoto,
conduzia sua carruagem. Vendo Arjuna titubear, parou tudo e mostrou que era seu dharma lutar pelo que lhe era de direito. Se seus irmãos estavam do lado errado, ele deveria ser forte e prosseguir. Caso desistisse, não apenas estaria cometendo um erro, mas ainda seria humilhado por aqueles que o abandonaram.
Dramáticos os hindus.
Consegui dormir antes de começar o capítulo 3. Faz anos que li a Gita, mas lembro que no fim Arjuna atinge seus objetivos. E mata todo mundo.
Ando com uma insônia braba. Cabeça a cem mil por conta dos tantos projetos em andamento. Questões do dia-a-dia têm exigido posições mais duras e tomada de decisões mais ousadas. Para não perder tempo (nem dinheiro) estou tendo que aprender a dizer na lata o que deve ser dito. O que não é fácil para alguém com uma formação meio hippie.
Os guerreiros não podem esmorecer. Muitas, muitas vezes é mais fácil fingir que não é contigo. Já incorri neste erro por ser mais simples empurrar as coisas com a barriga.
Seguindo a filosofia hindu, o que não se resolve nessa vida vira pendência (karma) e a solução do problema apenas é adiada para uma encarnação seguinte.
Acreditando ou não em reencarnação, o princípio é muito correto e nos torna mais fortes; para tudo na vida.
Porque não resolver tudo de uma vez e deixar de dar uma de avestruz ?
Quer ouvir o Bhagavad Gita recitado ? Ótimo para entrar num clima zen...Clica aqui.
| Escrito por André Fischer às 13h02 | ![]() |
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Botafogo, o campeão - e Miss Brasil
09/04/2006
Enfim, poder dizer novamente que o Fogão é Campeão. Não foram tantas vezes na vida, por isso cada vez tem um valor especial.
O Glorioso Botafogo.
Pela manhã fiquei decepcionado ao ligar para Suderj e confirmar que os ingressos estavam esgotados.
Resolvemos não encarar cambistas. Eu bem que queria, mas aí seria sozinho. Achei um pouco demais.
Pela Tv estou podendo ver as estrelas douradas, torcida alvinegra.
Ganhamos !!!!! Linda bandeira enorme aberta no gramado do Maracanã.
Quase chorando. Pode ser que seja um pouco demais também.
Montes de estrelas pela praia, muito lindo está o Rio.
Hoje consegui comprar bons ímãs enborrachados, que podem também ser colados em camisetas.
Iguais à estrela de neon lá no Vegas, Estrela Solitárias
Sexta-feira a Botafogo também foi uma delícia completa (sim, completa). Vegas com escrete campeão - de ambos os sexos, é preciso ser dito. Filminhos funcionaram bem, pista de cima fervendo. Bollywood rendeu uns braços levantados, Breno finíssimo, Barbie a full.
Embaixo a animação de sempre, jardim tudo de bom para fazer alvo.
Qunta-feira o Pomba vai ter me agüentar tocando o hino do Botafogo.
Campeão desde 1910 e campeão do centenário.
E os primos do Santos também ganharam em São Paulo!
*
Sim... e estive também no Miss Brasil este final de semana. Segunda vez que assisto ao vivo o concurso. Melhor do que o mega mico de dois anos atrás, mas ainda trash como ele só. Nem me refiro a Terezinha Sodré no júri ou a festa junina que parecia o desfile de trajes de noite. Poucas eram as candidatas que fugiam do esterótipo da baranga. Feias e semi-analfabetas, com as 'entrevistas' com as finalistas demonstraram.
O pior de tudo é a organização investir no mesmo tipo de beleza sempre a cada ano. O Brasil não vence um Miss Universo desde os anos 60. Pudera, só mandam gaúchas insossas que não tem chance perto de belezas
européias mais verdadeiras (e seguramente mais inteligentes) que ainda se submetem ao concurso em busca de uma fama fugaz. Um caminho seria escolher uma Miss Acre, tipo mais normal mas ao menos fazendo a linha exótica, que era a evidente favorita do público presente em um Claro Hall semi-vazio e que acabou ficando com segundo lugar. Que tal escolher uma mulher mais interessante e próxima do padrão brasileiro ? Quem sabe ter a coragem de arriscar uma negra, como a Miss Mato Grosso - para mim de longe a mais, e quem sabe a única, bonita das 27 concorrentes.
| Escrito por André Fischer às 17h10 | ![]() |
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Botafogo, a festa
05/04/2006
Poucas coisas são eternas na minha vida. Mesmo frequentando sempre, moro fora da minha cidade natal. Fui um CDF mauricinho até a Faculdade de Economia, virei punk (dark pra falar a verdade, ninguém é punk dirigindo com o carro que ganhou de presente dos pais), depois publicitário yuppie, clubber e agora já não consigo encontrar um label nem mesmo profissional. Cresci falando francês e acabei me encantando com inglês e depois espanhol. Tentei aprender esperanto, russo e libras. Fui batizado católico, cresci kardecista, me tornei hinduísta. Era o namorador na escola, faz anos que nem cogito sair com mulheres. Gosto musical, então, muda a cada ano.
Só uma coisa se mantém desde que nasci. Sou botafoguense e nunca pensei em
mudar de time. Até acompanho a conturbada trajetória do
glorioso nos campeonatos, mesmo quando caiu para segunda
divisão. Mas não sou um fanático, mesmo tendo tatuado escudo do Botafogo no meu
braço. Sou encantado pela história e mais ainda pela mítica da estrela
solitária. Me identifico totalmente.
Por isso resolvi chamar de Botafogo a noite que começo a fazer na primeira sexta-feira dos próximos meses no Vegas. No cardápio musical DJs bacanas e amigos com toques cariocas. No meu set, uma mistureba de hits de Bollywood, hip hop indiano (ondas mais recente) e electro-rock (que já vem me acompanhando há um tempinho), com um pouco de eletrônica brasileira. Música para dançar de camisa. Nas paredes do clube estou levando alguns filmes PB que me marcaram (no espírito alvinegro), e um documentário sobre sexo no cinema nacional - que só exibi uma vez antes de começar o Mix em 93.
Já tinha meio que desistido de tocar, limitando minhas incursões a algumas noites n´A Loca, clube onde me sinto em casa há 10 anos. Para ser DJ de verdade é preciso abandonar a vida de horário comercial. E sempre tive um fraco pela cena diurna, gosto de trabalhar com luz do sol, por isso tenho uma varanda bacana no meu escritório. Costumo lembrar daquele hit antigo do Disk Putas, 'tô véia, tô cansada'. O Vegas, sobretudo as noites de sexta, é dos poucos lugares que conseguem me tirar de casa para dançar. Clima de amigos, som bacana, lugar bonito.
Por isso resolvi encarar mais essa, no meio dos tantos chamados que o Trabalho (com t maiúsculo mesmo) tem feito recentemente. Acho que vai ser divertido. na manhã seguinte acordo e vou encarar o Miss Brasil no Rio. Haja animação.
Anima você também e vai lá ! O Vegas vc sabe onde fica. Começo a tocar cedinho, às 23h. O fervo vai até o amanhecer...
| Escrito por André Fischer às 18h48 | ![]() |
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Vai continuar ou vai desistir ?
04/04/2006
Era com essa pergunta que Silvia Bandeira começava o programa 8 ou 800 (milênios atrás na Globo) onde os participantes escolhia
m se iam prosseguir respondendo perguntas sobre um determinado assunto, arriscando o que já tinham conseguido e tentar alcançar os 800 dinheiros (mil, milhões, bilhões já não sei mais) ou parar e garantir o que já haviam conquistado até ali.
Existe uma cobrança social sempre favorável a continuar. Desistir costuma soar como sinônimo de covardia. Nos últimos dias tenho me confrontado com essa escolha constantemente. Fazer algumas mudanças no trajeto profissional, emocional ou de amizades muitas vezes implica em abrir mão de algumas coisas para conseguir ir em frente. Ahã. Desistir para continuar.
Para continuar um namoro é preciso desistir de algumas coisas ;-) Para continuar em um trabalho muitas vezes é necessário abrir mão de outro. Para ganhar uma noite de sono só abafando uma balada. E por aí vai.
Um amigo está passando por um drama imenso justamente porque não consegue desistir de uma relação que já acabou. Mais do que amarrado ao ex, está viciado no sofrimento da separação, com medo de abrir mão de algo que é certo. Pode parecer maluquice para quem está de fora, mas assim ele não se expõe, não carece entrar na batalha novamente. Desistir desse processo vai significar continuar a vida, com todos os seus riscos.
Em um determinado segmento das minhas atividades (já já vocês vão saber do que se trata) fui confrontado com o fato de ter que desistir de algo que já estava pequeno, forçando vôos mais altos. Perdi uma noite de sono, deu um frio na barriga. Ao assumir a perda pude entender que ela representa um crescimento efetivo. Uma ousadia que vai implicar em maior exposição e mais trampo e uma nova postura. Vou ter que me jogar, pagar para ver. E continuar.
| Escrito por André Fischer às 18h29 | ![]() |
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