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Amar Verbo Transitivo Direto

26/04/2005

Amar por amar é fácil. Basta dirigir seus sentimentos mais nobres à humanidade como um todo. Trazer o foco para um ser só é que são elas. Um amigo diz que o amor não escolhe alvo. Mas preciso dizer que quando ele escolhe um pouso deve fazê-lo sem críticas.
Foram poucas (e boas) as vezes que me apaixonei de verdade. Como sou relativamente econômico nas manifestações de afeição, pronunciei a fatídica declaração de três palavras meia dúzia de vezes em quase vinte anos de vida amorosa. Hoje em dia acho que exagerei em pelo menos três delas. Respondi com sinceridade a chamados atenciosos, mas vejo que extrapolei no entusiasmo. 
E em quase todas as relações incorri no erro de tentar aproximar os receptáculos do meu afeto aos modelos que tinha de relacionamento. Dominador? Acho que não. Meio iludido, talvez. 

Descobri na porrada que ninguém se molda. Pode ouvir um pouco, absorver alguns toques, ou, pior de tudo, fingir por um tempo que está fazendo o que você quer só para não se aporrinhar.

Melhor aproveitar e aprender com o outro a treinar sua capacidade de compreender.
Só assim se pode dizer que ama de verdade. Qualquer coisa além disso é mera projeção narcisista.
Espero fazer tudo direitinho desta vez.

 


Escrito por André Fischer às 18h12 Comentários Envie

Será o benedito ?

19/04/2005

Só um desabafo rápido.

E mais essa agora...Não consigo entender o objetivo da Igreja Católica. Afugentar fiéis ? Afastar-se cada vez mais do mundo real ? Dar um tiro no pé ?

Esse Bento 16 tem cara de ruim, é evidente que não é uma pessoa do bem. O outro papa, por mais que fosse conservador, tinha uma carinha boa, parecia muito meu avô. Tive um arrepio quando ele chegou no balcão da Praça de São Pedro. Tudo de ruim, como a matéria do Mix de hoje bem mostrou.

Minha irmã, que é católica praticante, ficou arrasada. Disse a ela que isso é a Igreja Católica, ela insiste em dizer que não.

Acho mesmo que os católicos de boa fé não podem concordar com alguém com posições tão arrasadoramente antiquadas. mas devem rever suas posições ao se manterem em uma religião cujos mandamentos beiram o pernicioso. 

Apesar de ter buscado outros caminhos e seguir outra filosofia mais oriental, fui batizado católico.

É importante não confundir os ensinamentos de Cristo com o catolicismo romano. Este, a meu ver, está condenado a caducar e se extinguir no próximo século, tal a falta de visão de mundo que vem praticando e que este Ratzinger nada mais é do que a expressão desta decadência.


Escrito por André Fischer às 20h38 Comentários Envie

No set de um filme pornô

11/04/2005

Apesar de trabalhar no segmento gay há mais de 10 anos, nunca tive maiores contatos com o lado pornô deste mercado. O Mix produz e publica ensaios e fotonovelas eróticas há uns 8 anos, trabalhei na G mais de 5 e nunca presenciei ao vivo a realização de uma cena de sexo encenada.
Já assisti vários documentários sobre a indústria pornô gay americana, mas tudo ficava no teórico.
Faltava em minha vida tão rica de vivências justamente esta experiência básica.

Essa semana, com a desculpa de conhecer melhor o trabalho de um novo parceiro,fui assistir as gravações de uma produção em andamento.
Já imaginava que as coisas rolassem do jeito que rolam, mas não sabia qual seria minha reação naquele meio. Nervosismo, excitação incontrolável, trava.
Convidei um amigo, fã do gênero, para poder trocar impressões.

A filmagem acontecia em apartamento do Centrão que funciona como privê, uma casa onde profissionais do sexo (note os termos politicamente corretos) recebem seus clientes. Aliás eles estavam na cozinha enquanto a gravação rolava nos outros cômodos e quando cheguei ficaram em dúvida se eu era um cliente ou vinha para a filmagem.
Cheguei bem no início de uma cena de trio, estrelada por Alan, Pernambuco e Victor. Alan já conhecia de outros filmes. Ele tem um escorpião tatuado em seu membro. Alguém pode imaginar o que deve ser tatuar aquilo lá duro ? Eu fiquei com essa imagem na cabeça.Já haviam me dito que no vídeo tudo parece menor, mas achava que era lorota. Pude constatar que realmente é verdade. O ator não tem seu famoso talento integralmente favorecido pelas câmeras.

Passei duas horas no set e Alan passou o tempo inteiro excitado. E me garantiram que não tomou Viagra. Para se manter de pé durante toda a gravação e as dezenas de interrupções,  ele usa revistas de sacanagem só com mulheres. Acredite se quiser.
Pernambuco, normalmente passivo em seus trabalhos anteriores, estava determinado a fazer cenas como ativo também e a equipe resolveu aproveitar animação. Azar – ou sorte- do estreante Victor, que teve que agüentar a vivacidade de seus dois parceiros. Como ele era o passivo convicto e não conseguia se excitar, não lhe restou outra alternativa. Haja xilocaína.
As posições variavam a cada cinco minutos, quando os atores se cansavam, estourava uma camisinha ou simplesmente – usando agora termo nada politicamente correto- um pau escapava de um cu. Os experientes Alan e Pernambuco queriam fazer uma DP no calouro, que, no entanto, arregou.
Depois de tanto tempo se excitando, fazendo sexo, posando para fotos de divulgação (em uma delas Pernambuco estava batendo papo normalmente e, ao pedido do fotógrafo, abocanhou o colega, posando rapidamente, voltando depois a conversar com total naturalidade), os rapazes tiveram alguma dificuldade para completar a cena – ou seja, gozar. Etapa necessária para que a equipe pudesse passar à produção da cena seguinte. Depois de quase meia hora esperando o gozo vir, eu desisti de acompanhar o gran finale e fui embora.

Mundo bizarro, o da indústria pornô.

Na saída meu amigo revelou que ficou excitado meio que no susto pela alta carga de erotismo da cena que víamos (um sanduíche com penetração numa ponta e sexo oral na outra) mas que a chama não durou nem dois minutos. A incessante movimentação na frente e atrás das câmeras, além da banalização completa do ato sexual com suas inúmeras interrupções pela busca do melhor ângulo, o deixaram sem o menor tesão.
Depois de cinco minutos era como se estivéssemos nas filmagens de uma produção qualquer, igual às tantas outras de comerciais, curtas e longa metragens que já presenciei e onde já trabalhei.
Como consumidores de pornôs, concordamos que o melhor mesmo é ficar na fantasia de que aquilo tudo acontece como assistimos nos vídeos: editado.
Em quinze minutos, só o melhor de quatro horas de literal ralação.

A vida deveria ser assim também, editada.


Escrito por André Fischer às 09h14 Comentários Envie

Si vis pacem para belum

03/04/2005

Na real, o buraco é sempre mais embaixo. 

Mario Mendes me deu uma bronca: disse que preciso ousar mais neste blog. Realmente no final do ano decidi de torná-lo menos pessoal. Algumas invasões de privacidade me levaram a fazer isso, já que foram geradas por textos que deram subsídios para essa intimidade.

Tipo quem que se sente invadido, depois de ter chamado a Caras para se deixar fotografar deitado na cama do quarto. Não é só a ressaca moral. É preciso ter culhão para manter uma peteca destas em jogo.
Pode ser que o Mario esteja se referindo a temas mais polêmicos, ser mais profundo em determinadas colocações. Como a proposta de blog originalmente é ser pessoal, toco em temas que me tocam. Nem tanto de experiências pessoais onde, por mais que você se abra, na real, o buraco é sempre mais embaixo. 

Achei engraçado um leitor perguntar se estava namorando. Realmente não falo mais disso aqui há meses. Sim, estou namorando e feliz, e talvez por isso mesmo tenha decidido não discorrer sobre isto para preservar o outro. Falar de experiências mais íntimas, e a relação passa por isso, significa expor o outro e se expor para o outro.
Já acabei um namoro por algo que escrevi e não foi nada agradável. O cara estava certíssimo porque falei sobre algo que eu pensava sobre a minha relação com o mundo –  e não havia compartilhado essas idéias antes com ele. Então que porra de namoro era aquele que eu não falava das coisas que eu sentia ? Pedi desculpa sinceras mas demorou para nos tornarmos amigos.

Fantasias, putarias, desejos e insatisfações povoaram este blog em tempos de jogação e solteirice.
Coisas que acontecem comigo, com amigos, coisas que acontecem com pessoas próximas, histórias que ouço.

Muita gente fecha seus blogs, fotologs, perfis no MSN e Orkuts por algo do que escreveram e não seguraram a barra da repercussão.
Imagine contar algo bem íntimo e ganhar um dia inteiro de chamada na home do UOL.

Mario, juro que fiquei pensando muito no que você disse e vou me esforçar para ser menos teórico, mais guerilheiro.
Só que tem momentos que você tem que ser, momentos que não.
*
O portal do Forte Copacabana tem uma inscrição bem forte em latim, oferecendo um jeito militar de ver a vida. Sis Vis Pacem Para Belum. Se quer paz, prepare-se para a guerra.
*
Pensei muito no papa. Já detonei muito sua militância mais do que conservadora, reacionária e retrógrada, sobre homossexualidade, aborto, divórcio, células-tronco, anticoncepcionais, camisinha e por aí vai. Por que não se preocupar com questões mais sérias e realmente importantes como o aquecimento global e uma mais justa distribuição dos recursos?
Por outro lado saiu do trono e se jogou no mundo, bateu cabeça no Muro das Lamentações e tomou passe de um pai-de-santo na Bahia. Bacana.
Não amarelei. Me tornei mais condescendente com seu legado.
Só que agora não quero escrever mais nada sobre o papa.


Escrito por André Fischer às 21h15 Comentários Envie


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