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30/12/2004

Não pude resisitir a um último toque antes de desligar definitivamente a máquina. Ontem fui a uma bela cerimônia budista de casamento entre o Fabiano e Wagner. Foi num lugar lindo, no meio da Floresta da Tijuca. Os convidados eram bem divididos: casais hétero (de terno e longo) e amigos gays. Os dois trocaram votos e promessas de manterem acesa a chama a cada dia, nada daquelas promessas católicas vazias de até a morte. Um noivo cantou Nessun Dorma acompanhado de músicos. Vozeirão. O outro fez um vídeo com depoimentos de amigos.

O relacionamento realmente mudou a vida do Fabiano, que eu já conhecia bem antes. Me impressionou eles assumirem o compromisso de uma vida comum e o comprometimento público de buscarem um projeto comum de vida.

Ao final as bis todas, emocionadíssimas, declararam que também querem casar. Mas o discurso não tem muito a ver com a ação, pois menos de uma hora estava aberta a temporada de caça, ali mesmo.

Chorei pencas.  

 

 


Escrito por André Fischer às 08h49 Comentários Envie

Diário Carioca

28/12/2004

Férias meio pela metade, trabalhei um tanto esses dias e fiquei bastante no computador.
Após uma semana de chuva, chuvisco, garoa e tempestade, finalmente o sol se firma no Rio. Durante os dias passados encontrei amigos paulistas apelando, tentando valer a viagem na praia mesmo sem sol nenhum, qualquer mormaço valia.
Foram dias de compras de natal na chuva e dormir muito. Ando colocando em dia o sono de 2004 todo e já deixando um crédito para 2005. Natal delicinha em família e agora a última semana para o social.
A cidade tem mais gringos do que normalmente nesta época, mas a paulistada mesmo só começou a chegar. Muitos franceses, só se ouve francês. Euro forte, ano do Brasil na Fança, deve ser por isso.
Mesmo desviando da Farme, presencio o desfile de corpos no Natural, na Visconde de Pirajá, no Bar 20. Leve desespero. A alta temporada carioca é mesmo para solteiros atrás de aventura. Monógamos que se segurem.
No Natal fui ver Os Incríveis, filme super família que defende a valorização das diferenças e do amor entre aqueles do mesmo sangue. Adorei. Mais ainda do curta da ovelha que passa antes, cuja leitura homoerótica é quase inevitável.
No dia seguinte foi a vez de Os Sonhadores. Gostei, mas como fui com muita expectativa, ela foi um pouco frustrada. Fiquei na onda do gêmeo Theo, cujo tesão reprimido pelo americaninho chega às raias da loucura, achei. Ele se masturbando pra Dietrich e depois cobrando”não ficou excitado, nem um pouco ?”. Dava para ter atacado ele direto, entre um vinho e um baseado, ele teria cedido...

Hoje tem mais praia. Ainda não sei se faço o bronzeamento a jato. Com bloqueador 30 está difícil sair do branco total radiante.
As festas já começaram, todo mundo anda em polvorosa. Eu acho que termino 2004 como fiz neste segundo semestre: pulando. Dia 29 tem o casamento do Fabiano e Wagner.
Acho que este ano ficamos por aqui, só volto a acessar no ano que vem.

Um ótimo 2005, tudo de bom p/ vc !


Escrito por André Fischer às 09h30 Comentários Envie

Escolhemos nossas pentalhações.

19/12/2004

Porque ainda sou botafoguense ?

Estava até minutos atrás sofrendo muito. Acompanhando na tv e na internet a última rodada do campeonato nacional.  Sou botafoguense e como torço desde criança por um time que nunca deu lá muitas alegrias, sempre me liguei mais na mítica da estrela solitária do que no desempenho da equipe em si.
Desta vez foram 46 rodadas entrando e saindo da zona de rebaixamento. Como já havia passado pelo trauma de ver meu time cair menos de um ano depois de fazer uma tatuagem com o escudo alvinegro, me senti compelido a torcer de verdade desta vez. Cheguei a marcar umas idas a Caio Martins, que nunca se concretizaram. Um semestre dramático. Minha formação religiosa shivaísta, com pitadas budistas e espíritas, me diz que tudo faz parte de um mesmo processo cármico. Entendo que tudo pode ter vários tipos de interpretações, mas uma caída para a segunda divisão seria difícil de engolir.
O segundo tempo foi teatral. Vários times corriam o risco de cair, portanto cada gol significava vida ou morte. O Botafogo chegou a cair duas vezes durante o jogo. Mas deu  a feliz surpresa de ficar na frente do Atlético em Coritiba. No final das contas ficou, e estou com a sensação de que, agora, tudo vai dar certo depois do sofrimento.
Durante o jogo um amigo no MSN me disse “vc ainda tem que passar por isso... tsc tsc tsc”
Não acho que seja muito diferente da maioria dos sofrimentos que nos impingimos.
Escolhemos com requintes masoquistas o que nos trará ansiedade e desgostos. Poderia elencar em menos de três minutos dez histórias minhas ou de amigos, tipo quiz.

 

Quais as encheções de saco que você mesmo trouxe para sua vida ? 


Escrito por André Fischer às 16h53 Comentários Envie

Finalmente, a carne

15/12/2004

Senti que o momento havia chegado. Depois de um dia de perua, batendo pernas atrás de compras de fim de ano, era hora de baixar os queixos em um bom pedaço de carne bovina. Talvez o excesso consumista tenha despertado a fúria carnívora. Fato é que o dia terminou em uma churrascaria.
Com um certo receio coloquei na boca a primeira lasquinha de picanha. Desceu bem, apesar de uma inegável culpa. Morrissey, me desculpe. Depois veio a costela e a alcatra, que também entraram sem nenhum problema. Na hora do filé mignon, no entanto, bateu a consciência do que estava fazendo e uma certa repugnância de estar com um animal morto na boca. Tive que cuspir. Afinal de contas há 17 anos não comia absolutamente nenhum mamífero. Mas sem traumas.
Fiquei esperando efeitos colaterais no dia seguinte e não houve nada.
À noite resolvi radicalizar: Filé a Oswaldo Aranha. Nina, vegetariana radical, ficou meio chocada.
Dessa vez, no entanto, o resultado foi dramático. Já cheguei em casa me sentindo pesado, com dor-de-cabeça, acordei com um baita piriri.
Até agora, dois dias depois, ando meio mareado e preciso confessar uma certa culpa. Daqui a pouco vou almoçar com um amigo. Minha sugestão foi um natureba. O bom e velho Quitanda aqui do lado.
Não vou desistir de incorporar carne vermelha em minha alimentação. Ainda sonho com uma rabada com agrião. Mas já vi que o processo vai ter que ser bem mais gradual.
Serve como um toque para todas as mudanças que planejo para 2005. Vamos em frente, mas um pouquinho de cada vez.
*

Ontem quase chorei em um sinal de trânsito por conta de uma cena ultra-emocionante, beirando o inacreditável. Não, não sou mulherzinha, não, nem estou ultra sensível. Por sorte a Renata estava comigo e foi testemunha. O vendedor de balas do farol da Oscar Freire com Rebouças ofereceu seu produto e agradeci. Ele saiu e voltou dizendo " Seu Festival de cinema é muito importante. Parabéns ". Saiu novamente e voltou mais uma vez. " Seu trabalho é muito importante para a cultura. Continue esse trabalho". Ipsis Litteris. Notei que ele usava um colarzinho com arco-íris. Não sou muito de comentar esses fatos, mas desta vez me tocou muito fundo ao ver a dimensão do alcance do trabalho realizado pelo Mix Brasil.

 

Quais seus planos para o fim de ano ?


Escrito por André Fischer às 09h47 Comentários Envie

O drama estético da Ucrânia

09/12/2004

Sou consumidor compulsivo de informação, sempre fui. Geralmente há uma notícia que me mobiliza por semanas e nesse período compulsoriamente leio tudo sobre ela, caço na Internet, nas revistas, nos jornais. Esgoto o assunto. Dificilmente leio mais do que a chamada de notas sobre o fim do namoro da Galisteu ou quem está comendo a bunda da Juliana Paes. Fofoca é algo que se esgota na primeira fonte, serve mais como amuse gueule informativo.

Por sinal a Nina me contou que a Daniella Cicarelli disse para ela em off, após o final de uma entrevista para a TPM, que lia com Ronaldo, na cama, o Dicas de Sexo para Mulheres por um Homem Gay. Genial, né? Pena que não dá para divulgar. Por isso você fica sabendo aqui em primeira e única mão.

Recentemente passei uma semana obcecado com a falência do Banco Santos. Mas o caderno que leio primeiro, mesmo antes da Ilustrada, Cotidiano ou Brasil é o Mundo.

Ando devorando tudo sobre a crise na Ucrânia. Existe um drama estético envolvido na história toda que, para mim, que a torna a notícia do ano.

Posso passar minha versão dos fatos ?
No começo do ano a Ucrânia ganhou, pela primeira vez o Eurovision – o festival da canção popular da Europa, um fenômeno absurdo de audiência, mas que ninguém conhece fora do continente. Cafonice 100% pura na veia. O Abba se lançou no Eurovision de 74. Bom, eu sempre vejo aqui ou lá. Quem escolhe o vencedor são os telespectadores dos trinta e tantos países europeus (mais Israel) que participam do concurso. Em 2004 a vencedora foi Ruslana, uma cantora pop ucraniana. Ganhou de lavada. Ela é ídolo absoluto em seu país, representa a modernidade, mas no duro parece demais com o Gengis Kahn. Acompanham Ruslana um grupo de bailarinos com atitude abertamente bissexual. Ela inclusive se declarou favorável ao casamento gay.
Nada ver com a crise eleitoral? Acho que foi aí que a coisa começou, com a atenção da Europa voltada para lá pela primeira vez para lá. A Ucrânia é um país completamente fora do circuito de notícias internacionais onde nada parece acontecer. Só me lembro de Kiev pelo War da minha infância.

O que vem acontecendo é que a maioria do país quer se aproximar do ocidente e a maneira que encontrou foi apoiar o líder oposicionista Viktor Yushchnenko, que é banqueiro e já foi primeiro-ministro e teria vencido as eleições em novembro. Mas o governo, apoiado por Moscou, fraudou-as descaradamente. Povo nas ruas, comunidade internacional mobilizada e o parlamento bancou a anulação das eleições e convocação de outra. O país está dividido entre os que querem mudanças e os russófilos avessos ao novo.
Yushchnenko além de tudo era um tipo galã, que usa a arrojada cor laranja como seu símbolo político. Era, porque ele foi envenenado e seu rosto, em menos de um mês, se transformou em uma mina de chagas e feridas. Virou um monstro.

Imagina o cara passar de Tarcísio Meira a Costinha em menos de um mês. Precisa de muita força mesmo para segurar a onda, por mais que ele seja uma liderança política. E eu aqui fazendo drama porque estou com o bíceps menor...

Você já passou por algum drama estético ?


Escrito por André Fischer às 13h23 Comentários Envie


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