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Em defesa de Mairan

29/09/2004

Quero fazer a defesa da escolha de Mairan como Garoto Mix Brasil NE 2004 no concurso que aconteceu na Metrópole, em Recife, no último final de semana. Eu mesmo, como parte do "júri", não estava muito seguro quanto à escolha e estava cedendo a pressão do público da casa por Ramon, o sensual GoGo Boy que impressionou por sua coreografia e profissionalismo no palco.

Em 2003 outro baiano, o também GoGo Tony Fernandes, já havia vencido o concurso sem deixar dúvidas.
A profunda semelhança dos tipos físicos e de apresentação dos dois baianos é inquestionável. Portanto a vitória de Ramon seria uma afirmação de que, no limite, o Garoto que quisesse ganhar o concurso Mix Brasil NE, deveria seguir exatamente este modelo. Mais ou menos como a escola de misses na Venezuela. 

Por mais que Mairan siga o padrão barbie volumosa (ouvi mais de um comentário o chamando de Alexandre Frota), seguramente representa um tipo diferente. E sua presença no palco poderia ter sido prejudicada pelo tipo de música proposta para sua apresentação, a house tribal. Favorita, justamente, dos GoGos. O rapaz, representante comercial, declarou que sua música favorita era o reggae. Como exigir de alguém que gosta de reggae dê um show ao som de Whitney ? Outro candidato bonitinho que também não rendeu na pista, declarou gostar de música eletrônica. Como fazê-lo se soltar ao som de drag music ?

Sugiro aos produtores do evento, que já é um sucesso consolidado, uma modificação nas regras para o próximo ano. Um desfile inicial dos candidatos com roupa, desfilando mesmo. Depois o desfile dançado, de sunga, ao som de uma música indicada por eles próprios. Assim, além de abrir espaços para uma maior diversidade de estilos, seria dada chance de cada um mostrar o melhor de si e não seguindo um determinado padrão.

Na mesma noite, na cabine de som pude vivenciar um pouco a ditadura do que seria um estilo musical gay. Fui convidado para tocar na festa da casa gls que considero uma das mais animadas do Brasil. Sempre me divirto horrores na Metrópole. Escolhi uma seleção de coisas que ouço atualmente, toco com sucesso em uns lugares por aí, sem me preocupar em cair para o Rock de vez em quando. Tenho gostado de uma coisa mais pesada, mas nem pensei em ir por este caminho. A princípio achei que o povo estava curtindo. Mas depois de três pessoas entrarem na cabine pedindo um som mais comercial e o GoGo da casa exigir uma música " própria" para sua coreografia, desisti.

Pedi à DJ Mobil, que também é da turma eletrônica mas está acostumada aos clamores do chamado público gay, que me substituísse na meia hora final do meu set. Meu repertório não seria apropriado para os moços nos queijos. Desci e me joguei na pista, onde me diverti pencas e aproveitei o clima contagiante de uma boa house gritada. Mesmo sem ser fã do estilo, consigo reconhecer quando alguém acerta a mão e agita uma pista quente como a de Recife. O fato de estar longe de casa ajuda bem na soltura. E pude, inclusive, ouvir reconfortantes elogios ao meu som, que evitaram uma possível nóia quanto a minha capacidade de tocar.

Mobil, te devo essa.


Escrito por André Fischer às 20h05 Comentários Envie

Ai que prazer não cumprir um dever

20/09/2004

Sempre fui um Caxias. Reconheço essa característica e atribuo ela a uma combinação dos gens teutônicos, um pai workaholic e uma mãe que insistia que matasse aulas. A rebeldia  funcionou ao avesso e minha irmã e eu sempre fomos os mais CDFs. Aos 16 já estava na Economia da UFRJ.

Minha avó dizia que o fato de ter começado a estudar muito cedo, acabaria cansando cedo.


Não acho que esteja cansado exatamente, mas começo a me permitir alguns luxuosos momentos de ócio.

 

Tenho reservado um tempo razoável para cuidar de mim mesmo. Fazer tratamentos no dermatologista, ortomolecular e periodontista implica em investimento razoável de tempo.

Continuo gostando de rotina, pois minha vida se direcionou para um sem fim de viagens e o dia-a-dia caseiro ganhou um sabor especial. Mas ando me permitindo não ir a programas que prevejo serem maçantes e limito a um por dia os encontros profissionais mais chatos.

 

Semana passada em plena quarta-feira resolvi passar a manhã e começo da tarde de bobeira, namorando, tomando meu açaí com calma, fazendo compras, andando de havaianas. Algo impensável até bem pouco tempo atrás. Não o fiz inicialmente desprovido de culpa. Mas fui lembrado do poema do Fernando Pessoa "Ai que prazer, não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer". E relaxei.

 

Sei que a vida só de prazeres é impossível. Continuo ralando pelo menos 10 horas por dia. Só que vou fazer o possível para valorizar cada momento dedicado ao meu bem-estar e ao puro hedonismo e reservar as chatices para coisas que realmente acredito.
Cruzo os dedos para que este plano dê certo. Saturno, o ponto focal das análises de meus trânsitos astrológicos, saiu da 8, entrou bonito na 9 e significa a busca de novas alternativas de vida e crenças.

 

O probleminha só é que nesta largação, não vou à academia há três meses. Resolvi me dar um tempo e curtir só um pouquinho o corpo mais esbelto. Quando o verão estiver gritando mesmo, caio nos ferros novamente.
Estou acreditando de verdade na possibilidade desta vida com menos apurrinhações.


 

 

E você, como administra o hedonismo em sua vida ?


Escrito por André Fischer às 16h53 Comentários Envie

Montreal: Tolerância, Inteligência e Aqüendação

13/09/2004

Passei uma semaninha bem bacana em Montreal. Não conhecia o Québec, fiquei impressionado com a riqueza e beleza da cidade. O clima de total segurança e da mais completa tolerância tornam Montreal ainda mais especial. Imagino que o clima amistoso tenha sido reforçado pelo fato do verão estar gritando em dias maravilhosos.

Por mais que eles digam que um frio de menos 30 é absolutamente suportável, ninguém me tira da cabeça que deva ser um horror. Se fosse tão tranqüilo, não teriam construído uma cidade subterrânea, cheia de lojas, serviços e restaurantes.

Montreal tem, além de um belo centro à americana, parques muitíssimo bem cuidados e o charmosérrimo Plateau, uma versão mais espaçosa e arborizada da arquitetura de San Francisco, um dos maiores bairros gays que já conheci. Charmoso, com comércio vibrante e até uma estação de metrô decorada com as cores do arco-íris.

Vale mencionar ainda que o consumo de maconha e haxixe é mais visível (ou melhor cheirável) nas ruas, boates e restaurantes do que em Amsterdã.

Gente linda, bem vestida, com pele e cabelos bem cuidados em todo canto.

No Village, o bairro gay, os clubes são todos de entrada gratuita, mas achei tudo muito careta. A cena SM é fortíssima e há vários clubes de strippers. Sensacional a trilha sonora e atitude dos garotos peladões. Já imaginou strip com Karma Police do Radiohead ? Pois eu vi !!!

Estive numa noite electro, que faz ainda bastante sucesso em Montreal, com Tiga (sim, ele mesmo!) tocando e show dos Martini Bros. Sou fã de todos, mas fiquei chocado com o grau de heterossexualidade da festa. Tipo 70% ou mais.

 

O fato da população ser absolutamente bilíngüe em francês e inglês ainda me trouxe uma alegria e bem estar maior. Sendo fluente nos dois idiomas, pude brincar de falar fazendo uma divertida mistureba das duas línguas, como quase todo mundo faz por lá.

E ajudou a melhorar o humor o fato de ter funcionado. Não sou um tipo universal e existem cidades, como Los Angeles, onde pareço ser transparente. Mas lá, como em Paris, meu tipo físico é mais bem sucedido.

Estive em Montreal em uma viagem de trabalho, a convite da organização dos OutGames, os Jogos Olímpicos que acontecerão em agosto de 2006. Fui conhecer as instalações (que abrem no Estádio Olímpico construído para as Olimpíadas de 1976), entrevistei o presidente dos Jogos, estive na prefeitura e vi o apoio que o prefeito está dando. Ele mesmo afirmou que esse apoio independe de partido político. Quem quer que estive no cargo apoiaria os Jogos Gays. E conheci o fofo do Mark Tewksbury...

A justificativa dos locais para o clima tão friendly é que pelo fato dos franceses terem sido uma minoria-maioria oprimida pelos ingleses, tenderiam a estar do lado dos mais fracos.

Só que os brasileiros não poderiam ser um povo mais fodido e nem por isso esse apoio a minorias é tido como automático em nossa cultura. Sinceramente, acho que é uma questão de educação mesmo. Os québecois são ricos como os norte-americanos, mas pensam que são franceses. Isso os torna europeus com ainda mais consciência política, generosos e respeitando as individualidades ao extremo.

Dessa vez voltei com aquele bodezinho tradicional do nosso país. Amo o Brasil, mas a gente está muitos anos luz atrás da corrida civilizatória. O que será que é preciso pra coisa pegar aqui ?

Ler a OutMagazine deste mês também me fez pensar muito na caretice do Brasil. Sabe quem são os anunciantes ? Versace, Louis Vuitton, Volkswagen, Sisley, Hilfiger, L´oreal, Gucci e por aí.

Fiquei pensando se a culpa é o preconceito dos anunciantes daqui ou se realmente não existe um produto voltado ao público gay como a Out, que virou uma revista de tendências..


Escrito por André Fischer às 16h58 Comentários Envie


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